Quais os limites da idolatria no futebol?

A janela entre duas temporadas, no Brasil, costuma ser um momento para o planejamento anual dos clubes brasileiros e um momento primordial para trazer reforços e novos jogadores para compor o time. Do final da temporada passada do futebol brasileiro, em dezembro de 2025, até primeiro trimestre da atual temporada de 2026, pudemos observar algumas movimentações polêmicas no dito “mercado da bola”. Desde jogadores idolatrados há muitos anos rompendo o contrato antes do fim, como foi o caso do Thiago Silva com o Fluminense e Phillipe Coutinho com o Vasco, jogadores indo à clubes rivais, como os casos de Marlon Freitas e Savarino, ambos saídos do Botafogo para Palmeiras e Fluminense respectivamente. E o retorno prematuro ao Brasil, como o caso do colombiano John Arias, ex-jogador do Fluminense. O jogador saiu do clube carioca para a Inglaterra jogar a Premier League, alegando ser um grande sonho jogar na Europa, entretanto retornou ao Brasil em seis meses para o Palmeiras, mesmo após prometer em sua saída que no Brasil jogaria apenas pelo Fluminense. E o caso do jogador Gerson, que no meio da temporada passada foi para o Zenit da Rússia, logo após ter renovado contrato com o Flamengo e no início desta temporada retornou ao Brasil para o Cruzeiro.

A partir destes casos, podemos visualizar em sites de redes sociais das páginas ligadas aos clubes e as páginas esportivas, acusações de traição, partindo de torcedores para os jogadores que saíram do seu respectivo time para um rival, mesmo em casos que os tinham como ídolos. Com isso, cabe a reflexão sobre até que ponto a idolatria, conquistada das mais diversas formas, resiste ao que a torcida vai entender como “traição”? Existem vínculos que são inabaláveis? Para tentar encontrar respostas para estes questionamentos, pode-se partir da ideia de “heróis” e “vilões” presente no trabalho de Costa (2020, p.8), que nos alerta que “no futebol, os limites que separam os heróis dos vilões são tênues e nitidamente dependentes do resultado de uma partida”. Ainda que aqui o foco não seja nas consequências do resultado de um jogo, podemos compreender a fragilidade da idolatria da torcida de um time acerca de um jogador, mesmo que acumule vitórias e títulos, principalmente quando este “troca” o time que atuava, no qual “ganhou” o patamar de ídolo, para um time rival. O que dialoga com a ideia de vilania presente em Costa (2020, p.13):

Nas copas posteriores a 1950 veremos que haverá vilões chamados de covardes, mascarados e mercenários, qualificativos moralmente condenáveis no âmbito futebolístico. Mas assim são os vilões, sempre condenados, rejeitados e vistos como portadores de uma série de defeitos tanto de ordem moral quanto esportiva. 

Assim como a vitória e a derrota faz do jogador de herói a vilão, a traição, do ponto de vista do torcedor, é primordial para transformar ídolos em traidores. Segundo Mário Filho, não há pessoa mais fiel que um torcedor ao seu “clube do coração”. Para um torcedor “trocar” de time é algo quase que vexatório, é simbolicamente proibido. O “vira-casaca” não é bem-visto entre os outros torcedores. “Qualquer um de nós conhece, de ouvir falar nem se fala, mas de conhecer mesmo, mais bígamos ou polígamos do que torcedores que mudaram de clube. Ou que traíram, mesmo em pensamento” (FILHO, 1966, p.7). 

Geralmente se ama sem saber porquê. Tantos caminhos levam ao amor que é quase impossível apontar um como a rota dos descobridores. Isto é verdadeiro, tanto em relação a uma mulher, como a um clube. E mais em relação a um clube do que a uma mulher, já que nenhuma mulher é tão verdadeiramente amada como um clube. Nem mesmo Brigitte Bardot, mais desejada do que amada.  (FILHO, 1966, p.7)

Se buscarmos na história recente do futebol podemos encontrar tantos outros casos de jogadores profissionais que mudaram de clube, seja porque foram dispensados, porque receberam uma proposta financeira melhor, porque o outro clube está mais competitivo e em competições mais importantes, entre outras motivações. Em um passado não tão distante, em 2022, German Cano deixou o Vasco da Gama, na série B do Campeonato Brasileiro de futebol e foi para o Fluminense que disputaria a Libertadores naquele ano. Ainda sobre esses dois clubes, temos muitos outros casos como Leandro Amaral, Dario Conca e tantos outros. Romário, Edmundo e Petkovic que jogaram no Flamengo, Vasco e Fluminense. E tantos outros casos se formos aprofundar ainda mais na história do futebol. 

Para compreender o que faz um jogador se tornar um ídolo de um clube e quais os limites que os levam a deixar de ser, fiz um levantamento através da plataforma Google Forms entre os dias 06 e 07 de março de 2026. O link com as perguntas foi enviado para grupos na plataforma do Whatsapp de torcedores que se reúnem para ir aos jogos nos estádios. As respostas eram anônimas e obtive 18 respostas através da plataforma. No Forms havia quatro perguntas com respostas abertas:

1 – Segundo sua percepção enquanto torcedor, o que faz um jogador de futebol se tornar ídolo do seu clube do coração?

2 – Seguindo o que você entende como ídolo, quais atitudes são imperdoáveis para qualquer ídolo do seu time? 

3 – Tem algum jogador que não importa o que ele faça, ele ainda continuaria sendo seu ídolo?

4 – Cite pelo menos 1 jogador no qual você enquanto torcedor se sentiu traído.

Na primeira pergunta, sobre o que faz um jogador se tornar um ídolo, a maioria das respostas abordaram como critério à idolatria a identificação e respeito com o clube e a torcida, bem como títulos, apesar de nem todos entenderem o título como critério primordial, mesmo que para a maioria seja de extrema importância.

Acho que uma combinação de fatores, nem só um e nem apenas o outro. Mas acredito que o principal fator deve se dar através da identificação de ambas as partes. De como o jogador percebe a paixão do torcedor e a respeita, como se vê na pele do fã; e em como o torcedor reconhece esse jogador como parte da torcida, bem como da maneira que o peso da imagem desse jogador pode influenciar o dia a dia desse torcedor e os círculos que compõem a vida deste.

Fonte: Resposta retirada do questionário no Google Forms

Identificação com a torcida, títulos e defesa pública da instituição, além de permanecer bastante tempo no time e também algumas situações que o jogador poderia escolher algo melhor/mais vantajoso e escolher o clube.

Fonte: Resposta retirada do questionário no Google Forms

Na segunda pergunta, sobre o aspecto acerca de atitudes imperdoáveis, a grande maioria relata o fato de ir jogar em time rival, e não necessariamente rival do mesmo estado, bem como a falta de profissionalismo ou desrespeito com a torcida. Entretanto surgiram respostas que abordam casos de assédio, racismo, entre outros.

Desrespeitar o escudo, a instituição, a história do clube, assim como o fanatismo e paixão do torcedor. Não sei precisar atitudes específicas para isso, mas talvez trocar o time por um rival (principalmente regional, mas nacional também); forçar a saída do clube; desmerecer a passagem que teve pelo clube.

Fonte: Resposta retirada do questionário no Google Forms

Acredito que qualquer ato criminoso, dentro do que é entendido por lei.

Fonte: Resposta retirada do questionário no Google Forms

Na terceira pergunta, sobre se há algum jogador que não importa o que faça, continuaria sendo ídolo, a grande maioria respondeu que não, que não há jogador intocável, porém alguns jogadores chegaram a ser citados, como o Fred, ex-jogador do Fluminense e até mesmo o Gabriel Barbosa, o “Gabigol”, ex-jogador e ídolo do Flamengo e que atualmente joga pelo Santos, time pelo qual foi revelado ao futebol profissional.

Depende do que seria esse “o que ele faça”, mas não diria que perderia a idolatria por completo, mas com certeza diria que, da minha parte, diminuiria bastante o respeito por esse jogador.

Fonte: Resposta retirada do questionário no Google Forms

Não, atitudes extracampo, exemplos na vida pessoal e social importam e muito. Ninguém está acima do bem.

Fonte: Resposta retirada do questionário no Google Forms

Por último, pedi que citassem ao menos um jogador no qual se sentiram decepcionados ou traídos. A grande maioria indicou pelo menos um jogador, a maioria dos jogadores citados no início desse texto, como John Arias, Thiago Silva, Gerson, Marlon Freitas e Savarino foram citados no questionário.

Abaixo, trago alguns prints retirados dos sites de redes sociais, como o Instagram, de páginas ligadas aos clubes e páginas esportivas na qual monitorei nas últimas semanas procurando a opinião da torcida sobre alguns dos jogadores citados acima:

Thiago Silva:

Fonte: Página no Intagram @fluviews. Acesso em:16/03/2026

John Árias e Marlon Freitas:

Fonte: Página Instagram @cazetv. Acesso em: 20/03/2026

Gerson: 

          

Fonte: Página Instagram @cazetv. Acesso em: 20/03/2026

Em suma, a idolatria a um jogador de futebol acaba não sendo algo permanente, mas sim dependente do que o torcedor entende como lealdade e identificação. Diferente da idolatria ao clube, que uma vez escolhido o “clube do coração” a fidelidade torna-se permanente. Quando o jogador rompe com o que o torcedor entende como lealdade — seja por transferências para times rivais, promessas descumpridas ou pela percepção de priorizar a questão financeira —, o ídolo é retirado desta categoria e torna-se um traidor.

Para o torcedor brasileiro, a lógica profissional esbarra muitas vezes com a lógica passional. Conclui-se, portanto, que os limites da idolatria residem, entre vários aspectos e fragilidades, também na preservação do respeito à história do clube e a sua torcida, pois uma vez entendido que houve uma “traição”, o jogador “perde” toda idolatria conquistada outrora. Nas arquibancadas concretas e virtuais, a fidelidade do torcedor é a única constante inabalável.

Referências Bibliográficas

BEZERRA, Larissa Layane; SANTOS, Magnólia Rejane Andrade dos. O futebol-arte, o atleta-herói e a mídia: coberturas antes e depois do 7 a 11. In: Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação XII Congresso de Ciências da Comunicação na Região Nordeste – Natal – RN – 02 a 04/07/2015

COSTA, Leda Maria da. Os vilões do futebol: jornalismo esportivo e imaginação melodramática. 1ed. Curitiba: Appris, 2020.

FILHO, Mario. História do Flamengo. 3ªed. Rio de Janeiro: Distribuidora Record, 1966

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