TATIQUÊS

Quando o jornalismo esportivo dribla a linguagem popular

Lateralidade. Dar profundidade. Atacar o espaço. Saída de três ou saída de cinco. Quem assiste à Copa do Mundo pela gramática dos comentaristas, sejam jornalistas ou ex-jogadores de futebol, tem a sensação de que o jornalismo esportivo tornou-se (quase) tão hermético quanto a cobertura econômica, com seu economês, cujo repertório inclui expressões exóticas para os leigos, como política monetária restritiva, curva futura de juros, superávit primário.

É verdade que, com o crescente uso da tecnologia, as táticas do futebol tornaram-se, cada vez mais, complexas. Também é natural que alguns comentaristas, por necessidade de se legitimarem no campo, se vejam obrigados a ampliar seus conhecimentos e recorram, eventualmente, a expressões que no passado seriam ironizadas como sinônimos de lazaronês, como o então jornalismo esportivo referia-se ao vocabulário rebuscado do ex-treinador da seleção brasileira Sebastião Lazaroni.

No entanto, ao abusarem do tatiquês, comentaristas ou comunicadores esquecem-se de que a principal função do jornalismo não é reproduzir os discursos de nichos, mas ser o decodificador de linguagem capaz de tornar o complexo mais simples e/ou compreensível para os seus leitores. Não conseguir fazer tal tradução pode significar que o profissional não entendeu devidamente o que escutou ou não tem habilidade para explicar o tema ao seu público. Tal função não é exclusiva do jornalista. Imagine o susto do paciente que, com dificuldade para enxergar de perto, escute do oftalmologista: “Você tem é presbiopia!”, em vez de ser avisado de que se trata de “vista cansada”. 

Num universo mais atomizado, a missão de decodificar linguagens vai variar de acordo com o público do veículo para o qual os profissionais trabalham, estando implícito que, ao se dirigirem a plateias já iniciadas, o didatismo é não só desnecessário, como desaconselhável. No entanto, ao lidarem com o esporte mais popular do mundo e com evento que, segundo a Fifa, mobiliza cerca de 2,4 bilhões de pessoas em todos os continentes, o que inclui crianças no seu primeiro contato com o universo da bola e os chamados torcedores bissextos – aqueles que só acompanham o futebol de quatro em quatro anos –, a linguagem deve dialogar com esse público.

E, mesmo entre o enorme número de fãs desse esporte, nem todos dominam o tatiquês e/ou têm nessa gramática seu principal objeto de encantamento. Lembremos que uma das razões que ajudaram a popularizar o futebol foram as crônicas esportivas. Ao mirarem além das táticas e dos resultados das partidas e falarem dos personagens desse universo – jogadores, torcedores, treinadores, cartolas… – elas humanizaram seus integrantes, aumentando a sensação de pertencimento e identificação entre os fãs.

Alguns cronistas, como Nelson Rodrigues, sequer tinham os jogos como objeto principal das suas histórias. Diferentemente, as usavam apenas como uma espécie de álibi para tratar do complexo e fascinante universo da alma humana. Outros, como João Saldanha, que chegou a treinar a seleção que seria tricampeã na Copa de 1970 no México, costumava fazer seus comentários olhando para fora da cabine da sua emissora para observar a reação dos torcedores que o escutavam em seus radinhos de pilha.

Durante décadas, as mesas redondas reproduziam, ainda que com especificidades, as discussões de bar que ajudavam que a relação do torcedor com o futebol tivesse um continuum além do jogo. Tempos diferentes pedem práticas diferentes. Portanto, o modo de consumir futebol também demanda adaptações e atualizações. Contudo, é importante ter em vista a essência que tornou o futebol o esporte mais popular da história do universo: seu caráter popular, democrático, de escassas mudanças, o que permite ter sua paixão transmitida de geração para geração, ainda que com apropriações singulares.

Ao exagerarem no tatiquês, jornalistas e comunicadores dificultam a interlocução com parcelas importantes do público e a aproximação daqueles que ainda não tiveram despertado seu encantamento pelo futebol. Além disso, vamos combinar: as transmissões, para sermos elegantes, ficam bem menos interessantes. Ou, em linguagem mais popular: bem mais chatas!

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