RAFAEL CASÉ
Junho de 2008. Monumental de Nuñez, Buenos Aires. No mesmo local onde, trinta anos antes, a seleção argentina conquistara seu primeiro título mundial de futebol, acontecia La Otra Final, não apenas uma partida comemorativa das três décadas daquela conquista, mas um acerto de contas com a história. Em campo, veteranos campeões, integrantes daquela seleção vitoriosa; nas arquibancadas uma enorme bandeira com rostos de desaparecidos durante o regime militar que comandava o país naquela época soturna.
A ditadura argentina foi responsável pelo desaparecimento e morte de milhares de pessoas. Uma ação sanguinária que incluía sequestros, tortura, assassinatos e desaparecimento dos corpos.
A Copa do Mundo de 1978 era uma excelente oportunidade para lançar uma “cortina de fumaça” sobre as atrocidades cometidas pelo regime e mostrar um suposto ambiente de normalidade no país. Estratégia mal sucedida, no entanto, graças à ação de um grupo de mulheres que decidiu não se calar: as mães da Plaza de Mayo. Senhoras com panos brancos na cabeça, simbolizando fraldas, que protestavam em frente à Casa Rosada, o palácio presidencial, exigindo informações sobre seus filhos e filhas detidos pelos militares e desaparecidos nos porões da Ditadura.
Foram essas mulheres, a quem o governo pejorativamente chamava de “las locas de la plaza” (as loucas da praça), que buscaram a aproximação com jornalistas estrangeiros que estavam ali para cobrir um grande evento esportivo e que, de repente, se viam frente a uma tragédia humanitária. O mundo podia, enfim, saber o que realmente acontecia nos bastidores daquele campeonato.

Las Madres recusavam-se calar (fonte – Revista Subjetiva)
Para regozijo do governo, a Argentina foi a campeã derrotando a Holanda numa final eletrizante, mas suspeitas de um resultado manipulado dos donos da casa contra a seleção peruana (uma goleada por 6×0) e a associação do triunfo com um governo assassino manchavam definitivamente a taça conquistada, para a tristeza de um elenco talentoso que, com méritos, havia sido campeão.
La Otra Final, três décadas depois era, portanto, uma forma de reconciliação daqueles jogadores com seu povo, agora com as bênçãos das mães da Plaza de Mayo.

O campeão René Houseman cumprimenta uma das madres no Monumental (fonte – EFE)
Nem só de circo vive o povo
A conquista do mundial pelos argentinos, contudo, não foi suficiente para dar a sustentação política que os militares esperavam. O terror governamental se mantinha. E para desviar a atenção de uma grave crise econômica e social e reacender o sentimento nacionalista, a Junta Militar Argentina, liderada pelo general Leopoldo Galtieri, invadiu as Ilhas Malvinas em 1982, uma área de litígio entre Argentina e Grã-Bretanha, que chamava o arquipélago de Falklands. A intenção era unir o país em torno da causa e garantir a sobrevivência política do regime ditatorial, porém a reação britânica foi inclemente e as perdas argentinas, enormes. Na falta de um contingente militar capaz de enfrentar o poderio da Marinha de Sua Majestade, até jovens de 16 e 17 anos foram enviados para o front.
Após dois meses de conflito, se deu a rendição argentina e a consequente derrocada do regime militar. Nas eleições presidenciais de 1983, um civil, Raul Alfonsín, voltava a comandar o país. Dois anos antes do que o vizinho Brasil
No ano seguinte é criada a Comissão Nacional sobre o Desaparecimento de Pessoas (CONADEP). O relatório final, que recebeu o título de Nunca Más (Nunca mais) documentou a existência de quase 350 centros clandestinos de detenção, além de explicitar métodos de extermínio, como os “voos da morte” quando corpos eram jogados de aviões no oceano para apagar vestígios, e localizou diversos cemitérios clandestinos onde eram enterrados presos políticos. Essa documentação serviu como base do julgamento civil dos integrantes de Juntas Militares realizado em 1985. Após algumas tentativas de anistia e a revogação das mesmas, a Argentina alcançou um feito histórico na América Latina: mais de 1.200 pessoas ligadas a crimes de lesa-humanidade foram condenadas. Militares de maior patente e chefes das Juntas militares foram sentenciados à prisão perpétua. Ainda hoje, crimes daquele período são julgados. O número oficial de vítimas é de quase nove mil, embora estimativas de entidades de direitos humanos afirmem que o total pode chegar a trinta mil.
As abuelas entram em campo
A luta pela localização dos desaparecidos nunca acabou, as madres de la plaza, se tornaram as abuelas (avós). Sem mais esperança de encontrar seus filhos com vida, trataram de focar seus esforços na localização dos netos. É que cerca de 400 bebês foram retirados de presas políticas e entregues a famílias simpáticas ao regime ditatorial.
Para ajudar nessa busca foi criado um Índice de Abuelidad. Difícil de traduzir literalmente, mas se tratava de uma fórmula capaz garantir com 99,99% de certeza a relação de parentesco entre netos e avós. Um instituto estatal foi criado para coletar e armazenar amostras genéticas. Além disso, campanhas publicitárias começaram a ser veiculadas pelo país para explicar a situação e estimular jovens de uma determinada faixa etária, que tivessem algum tipo de desconfiança sobre sua paternidade, pudessem fazer o teste. Até julho de 2026, 140 pessoas puderam descobrir seu verdadeiro passado. As fotos deles estão em um dos pavilhões da ESMA, Escola de Mecânica da Armada, maior centro clandestino de detenção e tortura durante a Ditadura Militar (1976-1983) e que hoje funciona como centro de memória e direitos humanos.

Tudo para encontrar os netos (foto do autor)
Figurinhas carimbadas
Às vésperas do mundial de 2026, em meio a todo o frisson gerado pelo lançamento do álbum de figurinhas da Copa, o designer argentino Ariel Cuadra decidiu criar um projeto artístico e pedagógico para marcar os 50 anos do início da Ditadura Militar argentina. O projeto é uma parceria com a organização HIJOS Capital, uma sigla que significa Hijos e Hijas por la Identidad y la Justicia contra el Olvido y el Silencio (Filhos e Filhas pela Identidade e a Justiça contra o Esquecimento e o Silêncio).

Um álbum histórico e revolucionário (foto de divulgação)
Ao invés de jogadores de futebol, figuras históricas dos direitos humanos. O material, disponível em PDF, é gratuito e pode ser impresso em casa ou em escolas. O álbum tem quatro páginas e a última delas contém todas as figurinhas prontas para serem recortadas e coladas nos espaços correspondentes. Cada cromo traz o nome completo, data de nascimento e informações sobre o histórico de luta da homenageada. No caso das avós, também são mencionados os nomes dos netos e netas. Segundo o criador, o objetivo é utilizar o hábito da coleção de figurinhas para aproximar as gerações mais recentes de uma realidade nebulosa e que, com isso, se evite que situações assim voltem a se repetir. Uma forma lúdica de abraçar a memória e reconhecer a luta dessas mulheres. Em um país comandado, atualmente, por Javier Milei, um presidente que despreza os direitos humanos, criar um álbum como esses é algo totalmente revolucionário.
Que em meio a toda empolgação pela grande campanha de sua seleção, vice-campeã do mundial de 2026, após a “poeira baixar”, o povo argentino entenda o que disse o treinador Lionel Scaloni, às vésperas da semifinal contra a Inglaterra. Trata-se apenas de futebol. E independentemente de quem esteja no poder, uma bola ou uma taça, não podem ser capazes de ocultar o que de mal acontece. A vida real vai bem além das quatro linhas.
