A Copa do Mundo FIFA 2026 em versos de cordéis virtuais

A literatura de cordel é um dos patrimônios culturais imateriais do Brasil, registrada em 19 de setembro de 2018 pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). De acordo com o historiador Ulpiano Toledo Bezerra de Meneses, desde os primórdios fundados na oralidade, a literatura de cordel demonstraria sua “força como meio de comunicação” (MENESES, 2019, p. 230). Entretanto, bem antes, já nos anos 1970 e 1980, a literatura de cordel era considerada na chave dos postulados propostos por Luiz Beltrão enquanto “folkcomunicação”, definida pelo pioneiro nos estudos da comunicação popular como “um mecanismo de comunicação adaptado a demandas locais e receptores de classes menos favorecidas” (BELTRÃO, 1980, p. 40).

A literatura de cordel, exemplo de mediação folkcomunicacional e uma das manifestações populares mais significativas da cultura brasileira, segundo Rosilene Alves de Melo, “uma expressão da voz popular, da memória e da identidade nacional” (MELO, 2019, p. 245), não ficou alheia a outro fenômeno igualmente popular em termos de práticas corporais e esportivas: o futebol. Isso se estabeleceu muito por conta dos triunfos da Seleção Brasileira nas Copas do Mundo de 1958, 1962 e 1970. Desde o final dos anos 1950, as conquistas da Seleção Brasileira passaram a inspirar cordelistas a comporem versos em sua homenagem e também a expressarem a expectativa por novos triunfos ou a decepção pelas derrotas e consequentes desclassificações. Em 2026, não foi diferente.

Todavia, o sonho da conquista do Hexa em 2026 acabou após a derrota da Seleção Brasileira para a seleção da Noruega, pelo placar de 2×1, em 05 de julho. O universo do cordel não ficou indiferente à vexatória desclassificação de Carlo Ancelotti e seus comandados. Não obstante as dificuldades que a Seleção Brasileira havia encontrado nas Eliminatórias Sul-americanas para a Copa, ficando em 5º lugar, atrás das seleções da Argentina, do Equador, da Colômbia e do Uruguai, intensas campanhas em segmentos hegemônicos da mídia e nas redes sociais trataram de criar uma expectativa para que o título de hexacampeão fosse, finalmente, conquistado, após 24 anos de jejum.

Nesse sentido, não surpreende que tenham sido compostos poemas no calor da hora, criticando a fraca atuação da Seleção Brasileira na Copa. Exemplo disso são cordéis virtuais publicados na plataforma Recanto das Letras (https://www.recantodasletras.com.br/) desde a derrota para a seleção da Noruega: Foi desse jeito, do paraibano P.G. Morais, Cuida Brasil, do alagoano Ênio cordelista, Brasil eliminado nas oitavas da Copa 2026, da cearense Cláudia Pinheiro, Cordel do Hexa, do mineiro Will Guará, O sonho do Hexa é brasileiro e A esperança da vitória em 2030, da paulista Maria Augusta da Silva Caliari.

Para além do tema, todos esses poemas têm algo em comum: o formato virtual, do qual derivam algumas questões quando se fala do gênero literatura de cordel e de suas especificidades tradicionais: Enquanto folhetos impressos seguem uma rígida estrutura formal em sua composição, com número de páginas determinado pela dobradura do papel em quarto – 08, 16, 32 ou 64 páginas – com 32, 64, 128 ou 256 estrofes, e predomínio de estrofação em sextilhas, septilhas e décimas, com métrica em redondilha maior, de sete sílabas poéticas, cordéis virtuais costumam ser muito mais breves, podendo apresentar poucas estrofes, além de não seguir estritamente as estruturas de rimas ou de estrofação, e nem estar sujeito à determinação de tamanho em decorrência do suporte. Trata-se de um aspecto, aliás, muito debatido atualmente entre estudiosos do gênero literatura de cordel, que questionam a própria legitimidade de se falar de “cordel” nestes casos em que a virtualidade impõe outros formatos que não aquele que se consolidou ao longo do século XX com folhetos impressos.

Aliás, cabe ressaltar que a virtualidade tem se revelado um elemento fundamental quando falamos de cordel. Se cordéis impressos, desde os primórdios, figuram como uma espécie de “jornal do povo”, sempre receptivo a traduzir notícias em versos, cordéis virtuais mantêm essa relação, porém, de uma forma muito mais ágil e rápida, uma vez que não prescinde de todo o processo de produção, impressão e publicação até chegar às mãos dos leitores. O ciberespaço possibilita que cordéis sejam publicados e recepcionados em suportes virtuais quase que automaticamente. Em geral, cordéis virtuais são publicados em blogs e em plataformas digitais, às vezes, depois de passados minutos ou mesmo poucas horas de determinado evento.

A título de exemplo de composição e de veiculação de cordéis virtuais no contexto de um megaevento esportivo como a Copa do Mundo FIFA 2026, selecionamos alguns deles que versam sobre a eliminação da Seleção Brasileira, publicados na plataforma Recanto das Letras (https://www.recantodasletras.com.br/). Comecemos pelo cordel virtual Brasil eliminado nas oitavas da Copa 2026, da cearense Cláudia Pinheiro, postado em 05 de julho de 2026, que, logo na primeira estrofe, marca o tom de tristeza e desilusão com a derrota para a seleção da Noruega: “Brasil jogou pouco e ruim/ Com muitos passes errados/ Não conseguiu avançar/ Sendo assim eliminado./ O brasileiro se entristece/ Com final deste resultado.” (PINHEIRO, 2026) A poeta-torcedora aponta também o baixo nível técnico da Seleção Brasileira: “Não apresentamos dificuldade/ Para o time confrontado./ Nosso futebol está fraco/ Precisa ser estudado./ Com treino e investimento/ Pra ser mais acreditado.” (PINHEIRO, 2026) Já o cordel virtual Cuida Brasil, do alagoano Ênio cordelista, postado em 06 der julho de 2026, com estrofes de oito versos, algo não comum em termos formais, destaca a atuação do centroavante norueguês, Erling Haaland, que teria sido impiedoso ao marcar os dois gols: “Nossa nação brasileira/ Aprendeu uma lição/ Fizeram memes demais/ Com o tal do galegão/ E parece que o rapaz/ Levou isso ao coração/ Descontando no Brasil/ Amassando a seleção.” (ÊNIO CORDELISTA, 2026). Bem ao espírito da virtualidade de seu cordel, o poeta também critica a profusão de “memes” veiculados nas redes sociais mesmo antes da partida: “E a gente voltou pra casa/ Com a dor no coração,/ O sonho de ter o hexa/ Foi só na imaginação/ E o grandão mostrou ali/ Que foco e determinação/ Vale mais do que os memes/ Que inventou nossa nação.” (ÊNIO CORDELISTA, 2026)

Por sua vez, para além do desempenho sofrível da Seleção Brasileira na partida que decretou sua eliminação, ao longo do torneio, a condução da arbitragem em algumas partidas foi questionada, algo explorado também na composição de cordéis virtuais. Como exemplo disso, selecionamos o Cordel das irregularidades da Copa 2026, do poeta, escritor, cantor e compositor cearense Chico do Crato, que vive em Salvador desde 1985. Postado em 12 de julho de 2026 na plataforma digital Recanto das Letras (https://www.recantodasletras.com.br/), nos idiomas português, espanhol, francês e inglês, o cordel virtual é composto por 10 estrofes em sextilhas, com métrica em redondilha maior na maioria dos versos, e com rimas nos versos pares. Embora mantenha relação com a tradição formal dos cordéis impressos, trata-se de um poema muito mais breve, algo típico de cordéis virtuais, regidos por outros procedimentos de composição mais flexíveis.

Logo na primeira estrofe do Cordel das irregularidades da Copa 2026, o poeta, feito um arauto, anuncia o tema central: “Ô povo, escutai esse cordel/ Que o vovô aqui vai rimar/ É sobre a Copa do Mundo/ E o que tão falando por lá/ De arbitragem tendenciosa/ Que deixa o mundo a reclamar.” (CHICO DO CRATO, 2026). Como noticiado na mídia hegemônica e nas redes sociais, questionamentos surgiram, sobretudo em relação a partidas da seleção argentina, conforme Chico do Crato anotou em seus versos: “Argentina entrou em campo/ Com raça e com coração/ Mas junto veio a polêmica/ E a revolta da nação/ Do Egito, da Argélia/ E de quem viu a situação.” (CHICO DO CRATO, 2026)

Em termos folkcomunicacionais, o cordelista figura como agente que assume para si a função de partilhar sua poesia com a coletividade, algo marcado no primeiro verso: “Ô povo, escutai esse cordel!” Por sua vez, além de noticiar, o poeta não deixa de expressar também sua indignação com os erros de arbitragem: “Contra o Egito foi feio/ O povo ficou a gritar/ Gol anulado no VAR/ Por falta pra questionar/ Pênalti não foi marcado/ E a virada veio a chegar.// O Salah pediu a falta/ O juiz mandou seguir/ Puxão na área esqueceram/ De sequer revisar/ A Federação do Egito/ Foi na FIFA reclamar.” (CHICO DO CRATO, 2026) O mesmo tom de indignação está presente também em uma estrofe dedicada à partida envolvendo as seleções da Argélia e da Argentina: “Contra a Argélia também/ Messi entrou meio pesado/ Entrada dura no Mandi/ E o cartão ficou guardado/ Torcedor ficou nervoso/ Federação tem reclamado.” (CHICO DO CRATO, 2026)

Nota-se, portanto, que é evidente o procedimento de traduzir em versos notícias veiculadas na mídia virtual ou impressa. Mas o cordelista, como agente folkcomunicacional (TRIGUEIRO, 2008), não apenas noticia, como também critica e apela à entidade máxima do futebol mundial para que tais ocorrências sejam averiguadas: “Ô FIFA, o Collina/ Chefe da arbitragem/ O povo quer transparência/ Quer jogo sem linhagem/ Futebol é do povo/ Não pode ter privilégio em viagem.” (CHICO DO CRATO, 2026)

Ao final, a Copa do Mundo de 2026 consagrou a seleção da Espanha como campeã, após derrotar a seleção argentina no dia 19 de julho pelo placar de 1×0 na prorrogação, com gol assinalado pelo atacante Ferran Torres. No dia seguinte, o pernambucano Flávio Alves postou o cordel virtual Não chores por mim Argentina, no qual desferiu severas críticas à FIFA e à seleção argentina, que teria sido, mais uma vez, beneficiada pela arbitragem, a qual, no entanto, não conseguiu evitar a derrota para “La Furia”: “Com todas ridículas falcatruas/ Para proteger essa Argentina/ A FIFA uma entidade cretina/ Bem na minha cara e na sua/ Ficou mal vista no meio da rua/ E mesmo assim ainda roubou/ Um gol da Espanha ela anulou/ Mas a Espanha botou pressão/ E a Argentina cara de bundão/ Chorando pra casa retornou.” (ALVES, 2026)

Entretanto, mesmo com o torneio já encerrado, a eliminação da Seleção Brasileira na competição voltou a inspirar cordelistas a comporem seus versos. É o caso do cordel virtual O nó da Noruega no Brasil, do escritor e poeta cearense Pedro Paulo Paulino, postado na plataforma Recanto das Letras em 20 de julho de 2026, portanto, 15 dias após a derrota. Composto por 04 estrofes em décimas, esse cordel virtual segue a estrutura do martelo agalopado e apresenta métrica em decassílabos. Trata-se de um estilo complexo e tradicional da poesia popular no Brasil, utilizado não só na literatura de cordel, mas também no cancioneiro e nas pelejas de improviso de violeiros e repentistas nordestinos. Os dois versos finais de cada estrofe formam uma espécie de refrão.

Logo na primeira estrofe do cordel virtual O nó da Noruega no Brasil o eu-lírico evoca um momento recente da história do futebol brasileiro como sendo aquele que teria iniciado um período de “vexames”, presente na memória dos brasileiros: “Desde aquela derrota pra Alemanha,/ Perdendo de maneira mais infame,/ A nossa Seleção passa vexame,/ Já são seis copas que o Brasil não ganha!/ Agora, perdeu mais uma campanha,/ De novo e de maneira hostil,/ Jogando mal entrou pelo funil,/ Como sapo atolado na lagoa:/ Além dos sete a um, ninguém perdoa/ O nó da Noruega no Brasil!” (PAULINO, 2026)

Por sua vez, a segunda estrofe do cordel virtual O nó da Noruega no Brasil situa o leitor na Copa de 2026, exatamente na partida que decretou a eliminação da Seleção Brasileira no torneio: “Foi do tipo nó cego tão bem dado,/ Que não teve Neymar que desatasse./ Ele mesmo sequer não deu um passe/ Que do jogo mudasse o resultado./ O pênalty por Bruno mal cobrado/ Foi jogada bastante pueril./ Até time mirim estudantil/ Não chutava de modo tão à toa:/ Além dos sete a um, ninguém perdoa/ O nó da Noruega no Brasil!” (PAULINO, 2026)

Trata-se, pois, de um olhar crítico do eu-lírico para o baixo desempenho técnico e tático da Seleção Brasileira em mais de duas décadas, desde que conquistou o pentacampeonato mundial em 2002, na Copa do Japão e da Coréia. Sem contar mais com craques como Ronaldo Fenômeno e Ronaldinho Gaúcho, a Seleção não mais apresentaria desempenho à altura daquele angariado ao longo de décadas, na segunda metade do século XX, com craques como Pelé, Rivelino e Tostão. Os versos da terceira estrofe de O nó da Noruega no Brasil assim apresentam tal quadro desfavorável: “São duas dúzias de anos sem ganhar,/ E quanto mais veloz o tempo passa,/ Mais distante ficando vai a taça/ Que o Brasil não consegue mais pegar…/ Acabou-se o estrelismo de Neymar,/ Quebrado do dedão ao quadril./ A Seleção não tem mais o perfil/ Daquela que a torcida não caçoa:/ Além dos sete a um, ninguém perdoa/ O nó da Noruega no Brasil!” (PAULINO, 2026)

A análise dos referidos cordéis virtuais, postados no contexto da Copa do Mundo FIFA 2026 na plataforma Recanto das Letras, evidenciou a diversificação muito maior em relação a aspectos tradicionais do universo do cordel em termos formais (estrofação, métrica, rima etc.). Diante disso, tal aspecto nos leva a concluir que, indubitavelmente, ocorrem mudanças sensíveis decorrentes da passagem do cordel, do impresso ao virtual, que alteram também as relações internas do circuito folkcomunicacional, uma vez que os agentes folkcomunicacionais (TRIGUEIRO, 2008), por um lado, ampliam o espaço de atuação, dentro do ciberespaço, e, por outro, não se adaptam mais aos limites do próprio circuito folkcomunicacional de origem, o que implica a potencial interação com diversos sujeitos não necessariamente pertencentes e a esse circuito em termos culturais e identitários. Trata-se de algo que atesta o argumento de Roberto Benjamin (2000), de que o uso do espaço virtual por poetas populares amplia, sobremaneira, a transmissão e o alcance de seu pensamento para regiões externas ao circuito folkcomunicacional de origem, ainda mais ao tratar de uma das principais paixões do brasileiro: o futebol. Não obstante tal fato, como nos lembra José Marques de Melo (2008, p. 57), “as tradições comunicacionais das populações marginalizadas sobrevivem às inovações tecnológicas, demonstrando capacidade de resistência cultural, no tempo e no espaço”.

Referências bibliográficas

ALVES, Flávio. Não chores por mim Argentina. Recanto das Letras (Plataforma Virtual), 20 jul. 2026. [Código: T8677822]

BELTRÃO, Luiz. Folkcomunicação: a comunicação dos marginalizados. São Paulo: Cortez, 1980.

BENJAMIN, Roberto. Folkcomunicação no contexto de massa. João Pessoa, PB: Ed. UFPB, 2000.

CHICO DO CRATO [Francisco Sales Nogueira de Souza]. Cordel das irregularidades da Copa 2026. Recanto das Letras (Plataforma Virtual), 12 jul. 2026. [Código: T8672399]

ÊNIO CORDELISTA. Cuida Brasil. Recanto das Letras (Plataforma Virtual), 06 jul. 2026. [Código: T8667305]

MELO, José Marques de. Mídia e cultura popular: história, taxonomia e metodologia da folkcomunicação. São Paulo: Paulus, 2008.

MELO, Rosilene Alves de. Literatura de Cordel: conceitos, intelectuais, arquivos. Projeto História. São Paulo, v. 65, p. 66-99, mai./ago. 2019. Disponível em: https://doi.org/10.23925/2176-2767.2019v65p66-99 . Acesso em: 10 jun. 2025.

PAULINO, Pedro Paulo. O nó da Noruega no Brasil. Recanto das Letras (Plataforma Virtual), 20 jul. 2026. [Código: T8678052]

PINHEIRO, Cláudia. Brasil eliminado nas oitavas da Copa 2026. Recanto das Letras (Plataforma Virtual), 05 jul. 2026. [Código: T8666921]

TRIGUEIRO, Osvaldo Meira. Folkcomunicação e ativismo midiático. João Pessoa, PB: Ed. UFPB, 2008.

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