‘BRASIL É TAMBÉM CAMPEÃO MUNDIAL DE CLUBES: SANTOS’

Um ano após hesitar em destinar mesmo tratamento ao Peñarol, ‘Jornal dos Sports’ associa título santista ao da seleção brasileira no Chile

Analisamos em comunicações anteriores o percurso não linear da imprensa brasileira ao lidar com a nascente Copa Intercontinental quando esta não reunia equipes nacionais na disputa. O material empírico parece indicar que a cobertura jornalística até a competição ser apropriada por imprensa, clubes e torcida espelha o estranhamento com torneio que, no contexto da época, perdia em relevância para as competições estaduais e nacionais. A hesitação materializava-se já nas distintas nomeações para a competição – Copa Intercontinental, Copa Europeia/Sul-Americana, Copa dos Clubes Campeões, Copa do Mundo de Clubes, entre outras. Também havia pistas nos espaços pouco nobres e limitados, tanto nas primeiras páginas, quanto no confinamento de resultados e resenhas das finais às páginas internas dos diários da época.

Mas e qual a reação da imprensa brasileira quando, já na terceira edição do torneio, em 1962, um time brasileiro sagrou-se campeão contra o campeão europeu? E quando essa equipe era o Santos de Pelé, que, no mesmo ano participara da seleção brasileira que conquistara o segundo título Mundial, no Chile?  Para isso, nosso Grupo de Pesquisa Esportes, Ídolos e Identidades (GEII), coordenado por este autor, analisamos como o Jornal dos Sports cobriu o título santista, no dia seguinte à goleada, por 5 a 2 sobre o Benfica, em Lisboa, em 11 de outubro de 1962. Como o Santos vencera a primeira partida, por 3 a 2, no Maracanã, em 19 de setembro, a equipe paulista tornou-se o primeiro clube brasileiro a conquistar a competição. 

Antecipamos que dois fatores podem ter agregado valor simbólico ao entusiasmo do veículo carioca pelo título, além do fato óbvio de o campeão, desta vez, ser uma equipe brasileira: a presença de Pelé e a coincidência com a conquista do bicampeonato mundial da seleção brasileira, no Chile, apenas três meses antes. Tal associação aparece já no título do JS, todo em maiúsculas, na edição de 12 de outubro de 1962, no dia seguinte ao título: “BRASIL É TAMBÉM CAMPEÃO MUNDIAL DE CLUBES: SANTOS”.

A goleada sobre o Benfica, campeão europeu, na segunda partida, agora em Portugal, foi manchete da edição daquele dia. No soutien, que complementava o título, o jornal voltava a vincular a conquista santista com o campeonato da seleção: “Santos Fez Reprise Da Epopéia Do Chile: 5 x 2”. Um pouco acima, a menção ao público que lotou o Estádio da Luz, em Lisboa: “70 MIL PESSOAS VIRAM A QUEDA DO CAMPEÃO DA EUROPA”.

Vimos, assim, que, na própria ordem do título – “Brasil é também campeão mundial de clubes: Santos” (Grifo do Autor) – que o título a ser comemorado é brasileiro, sendo o Santos, cujo nome vem apenas após os dois pontos para indicar ser ele o representante do futebol nacional, naquele momento, metonímia de Brasil. É como se o jornal, em nome de uma união nacional simbólica, fizesse um apelo para que, naquele instante, fossem suspensas as rivalidades, locais e regionais, para que torcedores de todos os clubes pudessem celebrar a conquista brasileira, obtida por um dos seus times, em cima do campeão europeu. Tal simbolismo parece ser ainda mais poderoso se considerarmos que, embora, já no nome, o jornal apresente-se como dedicado aos esportes em geral, trata-se, não de periódico paulista, mas carioca.

Tal perspectiva, à medida que o torneio viesse a tornar-se o principal objetivo de clubes, torcidas e imprensa, iria sendo invertida. A partir de determinado momento, que ainda é necessário determinarmos com a continuidade da pesquisa, grande número dos adeptos que não do clube brasileiro envolvido na competição passa a torcer pelo adversário daquela equipe.

Não era esse, no entanto, o espírito da época. Refletindo o pensamento dos contemporâneos, o JS dedicou toda a primeira página à conquista do Santos. O fato de Pelé, por ter se machucado contra a então Tchecoslováquia, na segunda partida da Copa do Mundo, não ter participado dos demais quatro jogos, sendo substituído por Amarildo, do Botafogo, não borra a associação feita pelo veículo entre os títulos da seleção no Chile e a conquista do Santos.

O entusiasmo com Pelé transborda já nos títulos: “Pelé Foi O Rei Do Jogo: Lusos Nunca Viram Coisa Igual”, titula uma das matérias. Além de quatro fotos – duas das quais exibindo Pelé – a edição tem sete matérias sobre a conquista só na primeira página. O único “corpo estranho” no espaço mais nobre do jornal que não se refere ao campeonato é um anúncio do cigarro Minister: “Em atenção a pedidos de consumidores dos cigarros Minister, a Companhia de Cigarros Souza Cruz informa ao público que os filtros empregados nesses cigarros são feitos de um derivado de celulose, de origem vegetal, idêntico ao das principais marcas mundiais.”

A cobertura do título não ficou restrita ao generoso espaço da capa. Numa edição de dez páginas, o JS dedicou mais três – 4, 6 e 10 – ao campeonato. E, diferentemente de apenas um ano antes, quando a nomeação da mesma conquista pelo Peñarol, do Uruguai, em 1961, oscilara entre campeão mundial e “a chamada ‘Copa do Mundo de Clubes’”, o JS não tem dúvidas em como se referir ao título do time brasileiro: “SANTOS GOLEOU (5 X 2) E É O GRANDE CAMPEÃO DO MUNDO”, reafirma na manchete da página seis.

À medida que a pesquisa avança, ainda na fase em que a Copa Intercontinental não fora completamente apropriada por torcidas, clubes e imprensa, parece consolidar-se a impressão de que, destinado a espaços menos nobres dos jornais – especializados em esportes ou generalistas – quando da ausência de clubes brasileiros, o torneio é valorizado quando o campeão é uma equipe nacional. Tal postura revela-se, tanto nos espaços mais acanhados e nas escalas mais baixas da hierarquia jornalística – como rodapés, não manchetes e páginas internas – como nas nomeações, que vão oscilar entre proclamar o vencedor campeão mundial ou campeão da Copa Intercontinental, entre outras pistas.

Já quando o vencedor é brasileiro, os jornais, ao menos aqueles até agora consultados por nós, mais do que valorizar o título, tratam o campeão como o representante do Brasil contra o campeão europeu. Tal sentimento vai se esvaziar e mesmo ser invertido quando a competição torna-se o principal objeto de cobiça do universo futebolístico brasileiro. Tal sentimento ganhará maior dimensão quando nosso futebol deixa de exibir a condição de hegemonia, que começa a deslizar para os europeus, particularmente, no âmbito de clubes. 

A mudança de paradigma parece reforçar a necessidade de legitimação externa para elevar a autoestima de clubes e torcidas, ao mesmo tempo, que passa a servir de instrumento na disputa pela hegemonia interna. Tais hipóteses, observáveis de forma empírica contemporaneamente, necessitam, no entanto, de maiores avanços na nossa pesquisa, incluindo a possibilidade de determinar se houve ou não um ponto zero em que tal perspectiva muda. Ainda carecendo de mais material de análise, desconfiamos que, independentemente da identificação do momento dessa mudança, que tal movimento foi fortemente informado pela forma como a imprensa brasileira passou a tratar o torneio e do uso deste na disputa pela hegemonia do futebol nacional.

 

Nota:

Além de Pelé, o Santos teve cinco jogadores convocados: Gilmar, Mauro Ramos, Mengálvio, Coutinho e  Pepe. O clube era a base da equipe bicampeã mundial, junto com o Botafogo, que teve cinco convocados: Garrincha, Nilton Santos, Didi e Zagallo (todos titulares) e Amarildo (este, com a contusão de Pelé, no segundo jogo, contra a Tchecoslováquia, também tornou-se titular). 

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