Esporte e crise climática: do marketing verde à justiça socioambiental

A crise climática é um dos maiores desafios da contemporaneidade, ameaçando não apenas o equilíbrio dos ecossistemas, mas também a continuidade de formas de vida humanas e não humanas. O sexto relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), publicado em 2021, apontou que a Terra já aqueceu 1,2ºC em comparação ao período pré-industrial, aproximando-se do limite de 1,5ºC estabelecido pelo Acordo de Paris de 2015. O descumprimento dessa meta representa riscos diretos à segurança hídrica, alimentar e sanitária de bilhões de pessoas, com a intensificação de secas, enchentes e a propagação de doenças vetoriais.

Nesse contexto, o setor esportivo ocupa um lugar paradoxal. Por um lado, o esporte é afetado de forma direta pelas alterações climáticas, como demonstra a falta de neve que ameaça os esportes de inverno, a contaminação das águas que inviabiliza competições aquáticas e a má qualidade do ar que compromete práticas ao ar livre. No caso do futebol, o relatório Pitches in Peril, publicado em setembro de 2025 pela Football For Future e Common Goal, com apoio da Jupiter Intelligence e da CO? Foundation, analisou os estádios que sediarão as Copas do Mundo de seleções masculinas de 2026, no México, Estados Unidos e Canadá. O estudo indicou que, dos 16 estádios sede da Copa, dez apresentam riscos significativos de sofrer impactos de eventos climáticos extremos, como ondas de calor acima dos 32°C e tempestades intensas, sendo que esses fenômenos já foram observados durante a Copa do Mundo de Clubes de 2024.

Por outro lado, o esporte vem sendo usado como vitrine para discursos de sustentabilidade que, frequentemente, ocultam práticas nocivas ao meio ambiente, em um processo denunciado como greenwashing. Diante desse cenário, defendo que a análise da relação entre esporte e a emergência climática deve ser guiada por dois eixos: (i) a crítica ao greenwashing, que legitima práticas de exploração sob o discurso vazio da sustentabilidade; e (ii) a valorização do Bem Viver, conceito de origem indígena andina que propõe alternativas decoloniais, comunitárias e plurais para habitar a Terra.

Greenwashing: do discurso à contradição estrutural

A pressão crescente por políticas ambientais tem levado entidades e organizações esportivas a se apropriarem do discurso da sustentabilidade de modo superficial ou mesmo falso. Desde a década de 1990, com o avanço da agenda ambiental em megaeventos esportivos, a retórica verde tornou-se parte do marketing institucional. Nos Jogos Olímpicos, os discursos da política de sustentabilidade se fazem presentes há, pelo menos, 23 anos, quando a má gestão e os impactos ambientais das instalações dos Jogos Olímpicos de Inverno de 1992, realizados em Albertville (França), foram motivo de críticas na mídia. Em todos os Jogos seguintes, a sustentabilidade foi incluída no discurso das cidades-sede, funcionando recurso de legitimação das suas candidaturas.

Segundo estudo do New Weather Institute, no ano de 2024 as empresas de combustíveis fósseis investiram US$5,6 bilhões em patrocínios esportivos, mantendo 205 acordos ativos em modalidades como futebol, ciclismo, rugby e golfe. Desse montante, os esportes a motor concentram US$2,19 bilhões, com 40 parcerias ativas. Já no ciclismo, a petroquímica inglesa INEOS foi alvo de protestos de grupos ambientalistas por patrocinar a equipe de ciclismo INEOS Grenadiers (Team Sky, antes do patrocínio), associando a sua imagem a um esporte frequentemente promovido como ecológico, enquanto mantém seu status como uma das líderes em emissões de gases de efeito estufa. A mesma contradição é vista quando gigantes do setor petroquímico patrocinam esportes de neve, modalidades que vêm sofrendo diretamente com a falta de neve nos locais de treinamento e de competição.

No Brasil também não é diferente. Os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, em 2016, apresentaram o portal Abraça Sustentabilidade e uma cerimônia de abertura centrada em mensagens de preservação ambiental e diversidade cultural. No entanto, as análises posteriores mostraram que a sustentabilidade foi utilizada programaticamente como estratégia de comunicação para legitimar os altos custos e investimentos. O legado ambiental prometido – como a despoluição da Baía de Guanabara ou a criação da “Floresta dos Atletas” – ficou, em grande parte, apenas no papel. Desse modo, é possível afirmar que o destaque dado ao turismo e à infraestrutura revelou como a dimensão econômica foi priorizada em detrimento de compromissos reais com o meio ambiente. Assim, o que se projetou internacionalmente como sinal de responsabilidade ambiental se revelou, na prática, uma narrativa ilusória, confirmando que o greenwashing no esporte não se restringe a patrocínios de empresas com alto impacto ambiental, mas também ao discurso oficial de governos e comitês organizadores.

Bem Viver: construindo mundos plurais

A instrumentalização da sustentabilidade não é neutra, uma vez que ela produz a despolitização da crise climática, apresentando soluções técnicas e paliativas que encobrem suas raízes mais estruturais. Aqui entra o nosso segundo eixo, que se trata da necessidade de enfrentar a emergência climática a partir de uma perspectiva decolonial, reconhecendo as fraturas históricas que sustentam tanto a crise ambiental quanto o sistema esportivo. O engenheiro ambiental martinicano Malcom Ferdinand identifica no colonialismo as bases da “tempestade ecológica”, marcada por uma dupla fratura. A fratura ambiental hierarquiza a natureza, valorizando certos ecossistemas ou espécies, como ursos polares ou florestas “virgens”, em detrimento de ambientes urbanos, animais de criação e periferias. Já a fratura colonial estabelece a supremacia do homem branco, cristão e abastado, marginalizando povos racializados, periféricos e não ocidentais. Essa dupla fratura revela que a crise climática não é apenas ecológica, mas também política e social, sendo fruto de séculos de exploração colonial, escravidão e racismo estrutural.

Desse modo, Ferdinand propõe uma “ecologia decolonial”, que articula a luta ambiental à luta anticolonial, rejeitando soluções que desconsiderem as desigualdades históricas. Suas metáforas, como a Arca de Noé, o Navio Negreiro e o Navio-Mundo, ajudam a compreender as limitações do ambientalismo tradicional e a necessidade de construir novos horizontes. A Arca de Noé representa o ambientalismo seletivo, que salva apenas algumas espécies e ecossistemas, ignorando injustiças sociais. O Navio Negreiro remete à violência da modernidade colonial, mas também à resistência e à construção de novas formas de relação com a natureza forjadas na diáspora. O Navio-Mundo, por fim, simboliza a proposta de fazer do planeta inteiro o ponto de partida para uma ecologia que valorize a diversidade de seres, culturas e epistemologias. Essa visão é um eco do conceito de Bem Viver que propõe uma vida em equilíbrio com a Pachamama, a Mãe Terra.

No esporte, isso significa rejeitar a lógica de “crescimento infinito” que justifica megaeventos com alto custo ambiental. O caso da Stock Car em Belo Horizonte (2024) ilustra essas fraturas: a corrida, realizada no entorno do Estádio Mineirão, implicou o corte de árvores nativas, poluição sonora e impactos ao Hospital Veterinário da UFMG. Enquanto os organizadores celebravam “ganhos econômicos”, moradores e ambientalistas denunciaram a destruição de bens comuns, um processo que reproduz a lógica colonial de apropriação de territórios em nome do progresso. Por outro lado, iniciativas como o Corre Quebrada e o Corre Kilombo, coletivos de corredores de rua voltados à comunidade negra e periférica, materializam o Bem Viver ao conectar esporte, território e cultura. Essas práticas, construídas por iniciativa popular, devem receber maior atenção e incentivo do poder público, funcionando como políticas públicas de democratização da cidade e fortalecimento de laços comunitários, transformando o esporte em espaço de resistência.

Considerações finais: rumo a um esporte decolonial

Portanto, a relação entre esporte e emergência climática não pode ser reduzida a compromissos superficiais ou campanhas de marketing verde. É necessário reconhecer que o greenwashing enfraquece o enfrentamento da crise, e adotar o Bem Viver e a ecologia decolonial como horizontes possíveis para a construção de caminhos que reimaginem o papel do esporte na construção de sociedades mais plurais e justas. Desse modo, o esporte pode se tornar espaço de resistência e transformação, desde que desvinculado da lógica colonial e extrativista. 

Para que o esporte se torne espaço de transformação socioambiental, é necessário romper com essa lógica e avançar em quatro frentes: (i) transparência obrigatória sobre patrocínios e impactos ambientais; (ii) comitês independentes de monitoramento com participação de atletas, pesquisadores e comunidades; (iii) financiamento comunitário, reduzindo a dependência de empresas de alto impacto ambiental; e (iv) educação climática, que valorize saberes tradicionais e periféricos.

Desse modo, o pesquisador que se debruça sobre a interseção entre meio ambiente e esporte deve ter como objetivo construir propostas de mundos possíveis onde o esporte deixe de ser apenas palco de narrativas de sustentabilidade ilusória e se converta em instrumento efetivo de transformação, capaz de contribuir para a mitigação da crise climática e para a construção de modos de vida orientados pela justiça socioambiental. Iniciativas como o Corre Kilombo e a resistência à Stock Car em Belo Horizonte mostram que é possível construir alternativas onde o coletivo, a reciprocidade e o respeito à Terra guiam a nossa ação. O desafio proposto aqui é construir alternativas para converter essas experiências em políticas públicas, garantindo que o esporte deixe de ser palco de narrativas ilusórias e se torne instrumento efetivo na luta por um futuro plural e justo.

 

Referências

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FOOTBALL FOR FUTURE; COMMON GOAL; JUPITER INTELLIGENCE; CO? FOUNDATION. Pitches in Peril: A Landmark Climate Report Ahead of 2026 World Cup. [S.l.]: Football For Future, 2025. Disponível em: https://footballforfuture.org/pitchesinperil. Acessado em 16 set. 2025

JOHNSON, JAY; ALI, A. E. Sustainability, greenwashing, and the light green approach to sport environmentalism. Em: MCCULLOUGH, B. P.; KELLISON, T. B. (Eds.). Routledge Handbook of Sport and the Environment. 1. ed. [s.l.] Routledge, 2017.

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 TAYLOR, Matthew. Ineos accused of ‘greenwashing’ over Daily Mile sponsorship. The Guardian, 5 abr. 2019. Disponível em: https://www.theguardian.com/environment/2019/apr/05/ineos-daily-mile-sponsorship-teaching-union. Acessado em 16 set. 2025

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 FERDINAND, M. Uma ecologia decolonial. Tradução: Leticia Mei. São Paulo, SP: Ubu Editora, 2022.

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