Futebol de Mulheres sem Mulheres: do Brasileirão à Copa do Mundo de 2027

Soraya Barreto Januário

Bolsista de Produtividade CNPq – Nível C

 

Foto: Paulo Matheus/FEC

 

A situação do Fortaleza no Campeonato Brasileiro de 2026 é um retrato claro de como o futebol de mulheres é tratado nacionalmente, mesmo com ações importantes das entidades esportivas, como a da Conmebol, que exige que os times que participam de suas competições invistam no futebol praticado por mulheres. O eterno imbróglio administrativo ou desculpa orçamentária tentam camuflar as estruturas de poder que historicamente marginalizam as mulheres no campo esportivo. Como bem aponta Silvana Goellner (2021), o futebol de mulheres no Brasil é marcado por um “ir e vir” constante entre a visibilidade e o apagamento, onde as conquistas no campo de jogo muitas vezes esbarram em uma “interdição institucional” que se manifesta na falta de planejamento e na precariedade dos vínculos. O impasse vivido pelo Fortaleza, que conquistou o acesso por mérito esportivo para depois sucumbir à alegação de inviabilidade financeira e posteriormente, após grande comoção, à perda de prazos, revela a fragilidade de projetos que são tratados pelos clubes como concessões temporárias, e não como direitos adquiridos ou investimentos estratégicos. Isso tudo ocorreu nas vésperas do ano de realização de uma Copa do Mundo da FIFA de Mulheres, em 2027, tendo o Brasil como sede.

Nesse cenário, o trabalho de Leda Costa (2007) sobre a espetacularização e a memória do futebol nos ajuda a entender como a narrativa do “descuido” administrativo, como a perda de um prazo burocrático, serve para mascarar uma hierarquização profunda. No futebol masculino, a perda de um prazo de inscrição para um time de elite nacional seria tratada como uma crise institucional sem precedentes; no feminino, a hesitação do Fortaleza, depois de inúmeras narrativas truncadas, evidencia a persistência de uma espécie de “gueto simbólico”. A estrutura dos clubes, na maioria das vezes operando sob a lógica da obrigatoriedade imposta por federações e competições, como a citada Conmebol, são muito positivas mas, devido ao machismo, acaba por gerar departamentos de futebol de mulheres que carecem de autonomia decisória e suporte logístico, tornando-os vulneráveis a qualquer oscilação orçamentária do departamento masculino.

Aprofundando a discussão sob a ótica da comunicação e do consumo, as pesquisas que venho desenvolvendo (c.f Barreto Januário, 2023; Barreto Januário; Castro, 2023) ajudam a  compreender como a representação dessas atletas e desses times é construída e consumida. A hesitação do Fortaleza em confirmar a participação na Série A1 comunica ao mercado e aos torcedores, que o futebol de mulheres é um produto instável e de risco, reforçando estereótipos de amadorismo que as próprias atletas lutam para desconstruir diariamente. Quando um clube como o Fortaleza recua diante de uma vaga conquistada, não é apenas a perda de uma oportunidade esportiva, mas interrompe um processo de construção de uma cultura futebolística e de identificação de marca que é vital para a sustentabilidade da modalidade e da subsistência das jogadoras. A representação, aqui, é atravessada por uma lógica de descartabilidade, isto é,  a presença feminina é aceita enquanto não tensiona as prioridades financeiras da hegemonia masculina. Leda Costa et. al (2026) alerta para como o campeonato brasileiro do futebol de mulheres segue sendo tratado como amador pelas confederações regionais pela própria CBF.

Dessa forma, o vai e vem da vaga é um sintoma de um sistema que ainda não reconhece o futebol de mulheres como um campo de direito pleno, um mercado em consolidação e profissionalização. A transição de uma vaga marcada pela hesitação e posterior perda de prazo, já que o Fortaleza só enviou a inscrição de participação para a CBF 20 dias após o prazo estipulado pela entidade, fere o princípio do mérito esportivo e expõe a ausência de políticas públicas e institucionais que garantam a permanência das mulheres na elite do futebol nacional. Enquanto o futebol de mulheres for tratado como um projeto de “diversidade” e não como um pilar da identidade clubística, episódios como o do Fortaleza continuarão a acontecer e a ser interpretados como meros erros, quando na verdade são evidências de uma estrutura que ainda resistem em compartilhar o protagonismo e o orçamento de forma minimamente equânime.

Somado a esse cenário, o evento de lançamento da marca da Copa do Mundo de Mulheres de 2027 revela como essa assimetria estrutural é mais ampla do que pensamos. O evento, realizado em 25 de janeiro de 2026, no Rio de Janeiro, apresentou uma discrepância enorme entre o objeto celebrado, o torneio em si, e as sujeitas celebradas, que deveriam ser as mulheres pioneiras e contemporâneas do futebol nacional. A cerimônia foi tomada por figuras masculinas como Cafu, Bebeto, Ronaldo Fenômeno e outros campeões mundiais do futebol masculino. Por outro lado, a ausência das jogadoras pioneiras como Sissi, Pretinha, Roseli, Fanta e outras figuras fundamentais da construção histórica do futebol de mulheres e da seleção nacional, representa um silenciamento que segue apagando a memória coletiva e as lutas dessas mulheres pela legitimação da modalidade. Esta inversão de protagonismo configura uma apropriação discursiva onde o espaço que deveria ser destinado à valorização histórica do futebol de mulheres segue sendo ocupado por narrativas hegemônicas masculinas, reproduzindo o que Bourdieu (2013) denomina de violência simbólica institucionalizada. 

A crítica de Formiga, que reconhece o respeito devido aos ex-jogadores mas defende “mais espaço para mulheres em um evento voltado ao Mundial feminino”, aponta para uma tensão entre reconhecimento e representação no qual a homenagem aos homens opera como um dispositivo de deslocamento que mantém as mulheres na periferia do próprio evento que as deveria centralizar. Esta invisibilização dentro da visibilidade que tem sido conquistada pela modalidade (Barreto Januário, 2023) revela como estruturas patriarcais se reproduzem mesmo em espaços concebidos para sua superação, demonstrando que a inclusão performada pela CBF e FIFA pode coexistir com a exclusão efetiva. A fala de Ju Cabral, ex- jogadora e comentarista da Cazé TV, sobre a “grande oportunidade perdida de mostrar a história das Copas das mulheres” evidencia que o evento falhou em construir uma narrativa contrafactual que desafiasse a historiografia dominante do futebol, perpetuando assim uma epistemologia androcêntrica que naturaliza a secundarização das contribuições das mulheres ao esporte.

A ausência das jogadoras pioneiras da seleção nacional nas posições de destaque durante o evento de lançamento da Copa do Mundo Feminina 2027 configura uma violência simbólica (Bourdieu, 2013) grotesca e absurda, que reverbera, ao meu ver, uma espécie de trauma coletivo para essas gerações que lutaram pela legitimação da modalidade. É um ato deliberado de apagamento epistêmico (Foucault, 2005), que nega a materialidade das lutas por visibilidade, condições dignas de trabalho e protagonismo dentro de um espaço que deveria celebrar as conquistas da modalidade e suas personagens e sujeitas.

A inversão de protagonismo observada no evento expõe o que Connell (2005) denomina hegemonia masculina resiliente no campo esportivo. Esta apropriação discursiva opera através de um mecanismo de deslocamento que, sob a aparência de inclusão, mantém as mulheres na periferia do evento que deveria ser uma celebração sobre elas. A crítica de Formiga, citada pelo Lance! (2026), explicita esta contradição: “estamos falando de Copa do Mundo Feminina, o foco seria Copa do Mundo Feminina”.

Dados da pesquisa “Equidade de Gênero na Gestão Esportiva do Brasil” (Fenuchi et. al, 2025) revelam que apenas 18% dos cargos de diretoria em federações esportivas brasileiras são ocupados por mulheres, enquanto na FIFA, apesar de iniciativas recentes como a nomeação de Michelle Ramalho (Globo Esporte.com, 2025), a arquitetura de poder permanece predominantemente masculina. Esta assimetria decisória reproduz o que Spivak (2023) denomina de subalternidade institucionalizada, no qual as mulheres são objeto de políticas esportivas, mas não sujeitas de sua formulação.

A governança androcêntrica da CBF e FIFA perpétua as dinâmicas de exclusão sistêmica  (Possamai; Simoni, 2025). Enquanto as estruturas de poder forem monoculturalmente masculinas, a realidade do futebol de mulheres – desde a situação do Fortaleza até a Copa do Mundo – seguirá sendo regida por lógicas alienadas às experiências e necessidades das atletas. A contradição entre discursos de empoderamento e práticas de marginalização evidencia essa opressão benevolente (hooks, 2000), onde a celebração retórica do feminino coexiste com a manutenção de barreiras materiais ao pleno desenvolvimento da modalidade.

É preciso ação efetiva e políticas institucionais sérias em torno da equidade de gênero em cargos de gestão e decisão no futebol nacional e mundial. Um exemplo que tenho acompanhado é o  Projeto de Lei 3968/2024, de autoria da deputada Carla Ayres (PT/SC), que propõe a criação do Marco Legal do Futebol Feminino no Brasil, estabelecendo diretrizes nacionais e políticas públicas estruturantes para romper as barreiras históricas enfrentadas pela modalidade. A iniciativa busca garantir igualdade de oportunidades, financiamento específico através de um fundo nacional, combate à discriminação e violência de gênero nos estádios, além da valorização da memória das pioneiras, com mecanismos de governança participativa que incluam ex-atletas, gestoras e representantes de movimentos sociais no processo decisório.

 O projeto tramita em conjunto com a proposta do governo federal (PL 4578/25) e representa um avanço conceitual ao incorporar uma perspectiva interseccional e transformar o crescimento quantitativo do futebol feminino em desenvolvimento institucional qualitativo. Especialmente em um contexto estratégico às vésperas da Copa do Mundo Feminina de 2027. Todavia, esses projetos vêm sendo continuamente dilapidados pelo poder público em suas principais ações e corre o risco de virar uma lei esvaziada e apenas celebrativa e memorialística, apesar dos esforços da parlamentar e do grupo de assessoras e pesquisadoras que a tem ajudado.   

A implementação de políticas públicas assertivas são imperativas e estratégicas para a transformação do cenário do futebol de mulheres, uma vez que a hegemonia masculina institucionalizada em entidades como a CBF e FIFA demonstra claro interesse na manutenção de seus privilégios. Esta inação das estruturas de poder do futebol mundial evidencia que a mudança paradigmática não emergirá de concessões destas entidades, mas sim da pressão normativa e política exercida por marcos legais e pelo movimento das mulheres no esporte, para que se reconfigurem as relações de força no campo esportivo brasileiro.

 

Referências:

BARRETO JANUÁRIO, Soraya Maria Bernardino. Copa do Mundo e Futebol das Mulheres: a cobertura midiática nas edições de 2015 e 2019, numa perspectiva de gênero. Revista Mosaico, v. 14, n. 1, p. 02-13, 2023.

BARRETO JANUÁRIO, Soraya Maria Bernardino;CASTRO, Paloma Souza. NOTAS ETNOGRÁFICAS DE DUAS PESQUISADORAS-TORCEDORAS: PRÁTICAS DO TORCER E CONSUMIR FUTEBOL DAS MULHERES DO SPORT CLUB DO RECIFE. Vivência: Revista de Antropologia, v. 1, n. 62, 2023.

BOURDIEU, Pierre. Capital simbólico e classes sociais. Novos estudos CEBRAP, p. 105-115, 2013.

CONNELL, Raewyn. Masculinities. 2. ed. Berkeley: University of California Press, 2005. (Primeira edição: 1995).

COSTA, Leda Maria da. O que é uma torcedora? Notas sobre a representação e auto-representação do público feminino de futebol. Esporte e sociedade, v. 2, n. 4, p. 1-31, 2007.

COSTA, Leda Maria; VAZQUEZ, João; AFFONSO, Víctor; BARREIRO,Paula; COSTA, Geovana, QUINTANEIRA, Clara. Campeonato brasileiro feminino A1 2025. Relatório do Observatório Social do Futebol n. 3. Leme, 2026 (no prelo)

ESPN BRASIL. Cerimônia da Copa feminina no Rio gera incômodo de ex-atletas por destaque ao futebol masculino. ESPN Brasil, 25 jan. 2026. Disponível em: https://www.espn.com.br/futebol/copa-do-mundo/artigo/_/id/16228145/cerimonia-copa-mundo-feminina-rio-gera-incomodo-ex-atletas-destaque-futebol-masculino. Acesso em: 27 jan. 2026.

FENUCHI, Giovanna Maarouf; SILVA, Maria Eduarda Costa e; CAMARGO, Philipe Rocha de. Equidade de gênero na gestão esportiva do Brasil: um estudo sobre a presença feminina em cargos de liderança e os princípios de governança. 2025. 79 f. Relatório (Pesquisa) – Centro de Estudos em Comunicação e Políticas Públicas de Audiovisual, Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, Campo Grande, 2025. Disponível em: https://cecpan.ufms.br/files/2025/11/RES_079_EQUIDADE-DE-GENERO.pdf. Acesso em: 27 jan. 2026.

FOUCAULT, Michel.  A Arqueologia do Saber. 7 ed. Tradução Luiz F.B. Neves. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2005.

GE GLOBO. Fifa lança marca da Copa do Mundo Feminina 2027 com eventos em Copacabana. ge.globo.com, 25 jan. 2026. Disponível em: https://ge.globo.com/futebol/futebol-internacional/noticia/2026/01/25/fifa-lanca-marca-da-copa-do-mundo-feminina-2027-com-eventos-em-copacabana.ghtml. Acesso em: 27 jan. 2026.

GOELLNER, Silvana Vilodre. Mulheres e futebol no Brasil: descontinuidades, resistências e resiliências. Movimento, v. 27, p. e27001, 2021.

HOOKS, Bell. Feminist theory: From margin to center. Pluto press, 2000.

LANCE!. Protagonismo de homens no lançamento da Copa Feminina gera críticas; Formiga se posiciona. Lance!, 25 jan. 2026. Disponível em: https://www.lance.com.br/futebol-feminino/protagonismo-masculino-lancamento-copa-feminina-gera-criticas-formiga-se-posiciona.html. Acesso em: 27 jan. 2026.

O GLOBO. Lançamento da marca da Copa do Mundo Feminina de 2027 divide espaço com homenagens a ex-jogadores e gera críticas. O Globo, 25 jan. 2026. Disponível em: https://oglobo.globo.com/esportes/futebol-internacional/noticia/2026/01/25/lancamento-da-marca-da-copa-do-mundo-feminina-de-2027-divide-espaco-com-homenagens-a-ex-jogadores-e-gera-criticas.ghtml. Acesso em: 27 jan. 2026.

POSSAMAI, Kauana; SIMONI, Silvia; MILISTETD, Michel. Políticas públicas para o esporte feminino: Uma revisão de escopo sob a perspectiva da Teoria da Ecologia de Jogos. Movimento, v. 31, p. e31054, 2025.

SPIVAK, Gayatri Chakravorty. Can the subaltern speak?. In: Imperialism. Routledge, 2023. p. 171-219.

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