Pesquisando por vídeo partes de Bob Burnquist no YouTube, encontrei Menikmati. Esperava apenas mais um registro de manobras de um dos maiores ídolos do skate, mas me deparei com uma produção audiovisual multicultural que entrega muito mais do que a performance atlética. O filme me fez refletir sobre a relação intrínseca da prática sobre rodas com os estudos de corpo, cidade e identidade.
Claro, não fui a primeira a notar o impacto da vídeo parte na sociedade do skate. Em 2025, a éS Skateboarding, marca que produziu o vídeo original, lançou um documentário para celebrar os 25 anos de Menikmati. Reunindo skatistas, produtores e o diretor Fred Mortagne (o French Fred), o filme revisita os bastidores daquela produção e tenta responder a uma pergunta que atravessa gerações: por que um vídeo lançado no ano 2000 continua sendo tratado como uma referência máxima dentro da cultura do skate?
As respostas são diversas. Alguns lembram das manobras que pareciam impossíveis para a época. Outros destacam a equipe reunida pela marca, considerada por muitos um verdadeiro dream team: Eric Koston, Tom Penny, Arto Saari, Rick McCrank, Ronnie Creager, além dos brasileiros Rodrigo TX e o próprio Bob Burnquist. Há ainda quem exalte a trilha sonora marcante ou a estética visual inédita gerada pelas lentes de French Fred.
Todas essas explicações ajudam a entender a importância da obra, mas nenhuma delas parece suficiente sozinha. Afinal, desde então, centenas de vídeos foram produzidos: as manobras evoluíram a patamares inacreditáveis, a tecnologia das câmeras mudou e a internet transformou completamente a forma de consumir o esporte. Mesmo assim, Menikmati permanece intocável no topo.
Talvez isso aconteça porque ele nunca tenha sido apenas um compilado de manobras. Quando pensamos no audiovisual esportivo tradicional, é comum imaginarmos imagens burocráticas que registram o placar, a cronometragem ou grandes feitos competitivos. No skate, porém, as vídeo partes sempre ocuparam um lugar sagrado. Elas não documentam apenas a prática; ajudam a moldar e construir a própria identidade do skatista. É por meio delas que circulam estilos, estéticas urbanas, comportamentos e, acima de tudo, uma forma muito particular de apropriação e ressignificação do espaço público.
Aprender skate vendo skate
Muito antes dos algoritmos sugerirem vídeos infinitos, aprender a andar de skate significava assistir repetidamente às fitas VHS das grandes marcas. Era a dinâmica de pausar, voltar alguns segundos, observar o movimento dos pés e tentar reproduzir o truque na sessão seguinte.
Como observa Cirino (2020), as vídeo partes permitem a circulação transnacional das técnicas corporais. Elas fazem com que um skatista no Brasil incorpore referências da Califórnia ou que estilos de diferentes países passem a dialogar. Mas, desta forma, não circulam apenas manobras; circulam também gestos, posturas, olhares sobre a cidade e comportamentos. Essa transmissão dialoga com o argumento de Mauss (1974), de que a forma de utilizar o corpo é aprendida socialmente.
Em Menikmati, esse processo é evidente. O uso da câmera lenta revela os detalhes minuciosos das manobras, enquanto os enquadramentos valorizam a relação entre o corpo e o obstáculo. O diretor Fred Mortagne mudou radicalmente a experiência visual ao colocar a câmera sobre o próprio skate e filmar em movimento. Quem assiste deixa de ser mero espectador e passa a percorrer a cidade junto com o skatista.
Quando a cidade vira pista
Se as vídeo partes ensinam técnicas corporais, elas também transformam radicalmente nossa maneira de olhar para o espaço urbano. Em Menikmati, escadas, bancos e corrimãos deixam de ser mero cenário e se tornam elementos ativos da narrativa. Sennett (2016) argumenta que a cidade é produzida justamente na relação entre corpo e espaço: a arquitetura precisa ser vivida e apropriada. O skate é uma das práticas contemporâneas que melhor evidencia essa ressignificação do concreto, porém, essa ocupação nunca acontece sem conflitos. O filme expõe as disputas pelo direito à cidade quando, por exemplo, Rodrigo TX é hostilizado por uma pedestre que o manda “voltar para o seu país”, ou quando Eric Koston comenta, bem-humorado, que precisava subornar policiais na Tailândia com cerveja e cigarros para conseguir andar.
Ao mesmo tempo, o vídeo transborda o caráter coletivo da rua ao registrar viagens, erros de gravação e quedas, evitando o foco apenas no tom combativo. O próprio título “Menikmati”, termo indonésio que significa “aproveitar” ou “desfrutar”, resume essa essência. O fechamento da obra privilegia as experiências compartilhadas, deixando claro que o skate não se resume ao instante do acerto, mas acontece nos trajetos, nos encontros e no uso cotidiano da cidade.
Cada skatista conta uma história
É a partir dessa vivência nas ruas que as identidades começam a se desenhar. Menikmati se afasta da lógica tradicional do audiovisual esportivo ao abrir espaço para que os atletas narrem suas trajetórias antes de mostrarem suas manobras. É nesse ponto que passamos a compreender quem são aquelas pessoas, de onde vieram e como a relação com o espaço moldou suas identidades.
Arto Saari relembra como cresceu na Finlândia consumindo produções norte-americanas, o que despertou seu desejo de cruzar o oceano. Rodrigo TX recorda o impacto de dividir sessões com ídolos que antes só via pelas fitas. Já Bob Burnquist revisita sua infância em São Paulo, mostrando como as condições geográficas e sociais da capital paulista influenciaram diretamente sua formação como skatista.
Oliveira (2019) aponta a importância das “narrativas do eu” na construção das identidades contemporâneas: ao compartilhar memórias, os sujeitos produzem sentidos sobre o lugar que ocupam no mundo. No filme, essa pluralidade respeita as especificidades culturais, como quando Arto se comunica em finlandês e Bob em português, e cada um ganha uma trilha sonora que traduz sua personalidade urbana.
O exemplo mais curioso é Ronnie Creager que, sem saber o que dizer sobre si, pede para cortar sua introdução. No fim, são suas manobras que falam por ele. Essa ausência de relato reforça as reflexões de Le Breton (2016) sobre o corpo como espaço de experimentação e produção de sentidos. No skate, a palavra escrita ou falada pode ser secundária; a escolha de uma linha de manobras ou a forma de cair já dizem sobre a identidade de quem está em cima do carrinho.
Um clássico que continua em movimento
Quando o documentário de 2025 revisitou Menikmati, o objetivo não era apenas celebrar a nostalgia. A obra permanece viva porque definiu uma estética visual e uma forma de representar o skate que ainda influencia videomakers e atletas do mundo inteiro.
O filme ensinou novas formas de filmar, ampliou a circulação de técnicas corporais e mostrou que a cidade pode ser narrada a partir de quem a percorre sobre quatro rodas. É por isso que, mesmo em tempos de consumo rápido e rolagens infinitas nas redes sociais, Menikmati recusa-se a virar passado: ele continua sendo o espelho de uma cultura que se move pela liberdade de transformar o concreto em narrativa.
