Ailê V. Gonçalves
Neste ano os canais da SporTV e Premiere escolheram como vinheta de abertura do Brasileirão Masculino Série A uma construção visual que intercala cenas em referência a estádios de futebol, cultura de arquibancada e street art, com a música já utilizada nos outros anos. Agora, com o fim da Copa do Mundo 2026, veremos muito mais a vinheta circulando nos intervalos e pré-jogos do campeonato, porém algumas reflexões surgem a partir desse meio de comunicação.
Figura 1 – Frames da vinheta de abertura do Brasileirão Masculino Série A (2026)

Fonte: Colagem elaborada pela autora a partir de printscreen.
A vinheta, que possui 1 minuto e 02 segundos de duração, inicia com o Estádio do Maracanã alternando cenas com materiais de street art, como spray, tinta, pincel, rolo de pintura, com as festas de recepção das torcidas fora e dentro dos estádios, com as faixas, bandeiras, sinalizadores, papel picado, e toda pirotecnia da festa de cultura de arquibancada. Isso se mistura com cortes de jogadas que nos fazem lembrar ao “futebol arte” feitas pelos jogadores dos times da série A, logotipos de patrocinadores, junto com imagens dos murais dos escudos dos clubes, realizados a partir de Inteligência Artificial. Em determinado momento, quando aparece a arte do Internacional (RS), no lugar da data de fundação do clube 1909 no escudo, aparece 1900.
Figura 2 – Frame do mural do Sport Club Internacional

Fonte: Printscreen do vídeo “Vinheta de abertura do BRASILEIRÃO SÉRIE A 2026 no SporTV & Premiere” no Youtube.
Somente nesse frame, teríamos um debate bastante longo e complexo sobre o crescimento da IA na geração de conteúdos. Porém, o que sabemos aqui é que de fato esses murais não foram feitos e, que de certa forma, não são “reais”, mas são possíveis na cidade imaginária proposta pela vinheta. Outra percepção importante, é entender que o fenômeno do street art foi claramente associado não só à cultura de arquibancada, mas ao “futebol-arte” mercantilizável. Dessa forma, surgem alguns questionamentos de como o meio 1(comunicação), na linha de pensamento do autor Jesús Martín-Barbero (1981), se utiliza da cultura popular, desse espaço de produção de sentidos, mas principalmente e antes disso, eles só existem a partir da relação com as transformações dos modos urbanos de comunicação, às mudanças no espaço público e nas relações entre público e privado, ou seja, da cultura viva, construída nas práticas cotidiana.
O que está em jogo aqui é uma disputa do direito à cidade das torcidas organizadas, que vem através da intervenção urbana – pixo, grafite, street sticker, estêncil, etc…2 , uma reação às transformações significativas com a “arenização” dos estádios, impulsionado pela construção de modernas arenas multifuncionais para megaeventos, como a Copa do Mundo de 2014. Isto é, causando “efeitos territoriais”, no momento em que tentam docilizar3 o torcedor por meio da elitização e novos dispositivos de controle espacial, na transformação do estádio em um ambiente “estéril”, “ordeiro” e “familiar”. O processo que resultou em uma elitização – além da gentrificação -, progressiva do acesso aos jogos, buscando afastar dos estádios indícios de uma cultura fermentada no Brasil ao longo de pelo menos quatro décadas e do controle e extinção de um perfil “militante” de torcedor, substituindo-o por um consumidor sóbrio, solitário ou imerso ou em um grupo fechado, apático, com uma experiência sem riscos, focado puramente no espetáculo e no conforto pessoal.
Figura 3 – Esterilização dos Estádio de Futebol, baseado na obra de Mascarenhas (2014)

Fonte: Gerado por NotebookLM.
Quando o geógrafo Gilmar Mascarenhas (2014) afirma que ao olharmos pro espaço vivido, à profunda reforma sofrida pelos estádios nos últimos anos, que afasta um conjunto de torcedores em função do encarecimento do valor do ingresso e dos novos dispositivos de controle e vigilância, entendemos também as “arenas” como um território, como um “objeto geográfico”. Partindo disso, a relação que podemos fazer aqui, é a possibilidade do diálogo das ideias de Gilmar Mascarenhas com Jesús Martín-Barbero sobre comunicação e cultura popular, compreendendo que nesse espaço, as práticas cotidianas assim como a experiência vivida nos territórios urbanos, moldam, atingem e alteram os meios de comunicação, em uma conversa interpessoal e intrapessoal com o espaço, a atmosfera e o corpo.
Enquanto uma emissora utiliza de ferramentas semelhantes ao grafite ou pichação, fazendo uma alusão a cultura produzida através das intervenções urbanas e a coloca como um produto, ou uma propaganda, não podemos esquecer que fora dessa cidade imaginária da vinheta, a criminalização e marginalização continuam reprimindo e gerando medo, a quem produz essa mesma cultura. Quando o historiador Marco Aurélio, para a Revista Ópera, afirma que “o estado tem feito apenas o que faz sempre: deixar que os pobres se matem e, se possível, que não se divirtam” na matéria “10 anos de torcida única em São Paulo: a política de estado que quer enterrar a cultura de arquibancada”, o fantasma da “Torcida única” e as medidas cada vez mais restritivas, são também uma retirada da experiência dialética dos estádios, isto é, ideia de “torcida única” é outra modalidade de controle e mudança no caráter de público ativo.
Figura 4 – O pixo e o futebol

Fonte: Imagem retirada do perfil @interpixo do Instagram.
Figura 5 – Street stickers e o futebol

Fonte: Elaborada pela autora, através de printscreen das páginas do Instagram @tricolornasruas, @stickersvasco e @stickers.gda.
Dessa forma, tanto os stickers, quanto os grafites e o pixo não apenas marcam territórios físicos, mas também operam como dispositivos visuais de resistência dessas torcidas organizadas. Isto é, ao se inscreverem na cidade, eles produzem uma memória que é, às margens da institucionalidade, sua identidade, mas coletividade.
Jesús Martín-Barbero (1995) em Comunicação e cidade: entre meios e medos, também afirma que “Se a televisão atrai, isso é em boa parte porque a rua expulsa.” isto é, a televisão ocupa um espaço deixado pela perda ou modificação completa dos lugares tradicionais de convivência. A cultura de arquibancada funciona aqui como um produto mais domesticável, mais palatável e visando a comercialização de um “futebol verdadeiro”. Porém, parafraseando Baudrillard (1981) não há direito à cidade senão a partir do momento em que já não se tem mais lugar. Dessa forma, a cultura de arquibancada resiste, mas a que custo?
Referências
AURÉLIO, Marco. 10 anos de torcida única em São Paulo: a política de estado que quer enterrar a cultura de arquibancada. Revista Opera, 20 maio 2026. Disponível em: https://revistaopera.operamundi.uol.com.br/2026/05/20/10-anos-de-torcida-unica-em-sao-paulo-a-politica-de-estado-que-quer-enterrar-a-cultura-de-arquibancada/. Acesso em: 15 jul. 2026.
BAUDRILLARD, Jean. A sociedade de consumo. Trad. Artur Morão. 3. ed. Lisboa: Edições 70, 1995.
INUTILIDADES DA TV. Vinheta de abertura do BRASILEIRÃO SÉRIE A 2026 no SporTV & Premiere. YouTube, 29 jan. 2026. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=RfJRGPXgNlo. Acesso em: 15 jul. 2026.
MARTÍN-BARBERO, Jesús. Prácticas de comunicación en la cultura popular: mercados, plazas, cementerios y espacios de ocio. In: SIMPSON, Máximo (org.). Comunicación alternativa y cambio social. México: Universidad Nacional Autónoma de México (UNAM), 1981.
MARTÍN-BARBERO, Jesús. Comunicação e cidade: entre meios e medos. Novos Olhares, São Paulo, Grupo de Estudos sobre Práticas de Recepção a Produtos Midiáticos, ECA/USP, n. 1, p. 5–9, 1998.
MASCARENHAS, Gilmar. Entradas e bandeiras: a conquista do Brasil pelo futebol. Rio de Janeiro: EdUERJ, 2014.
OLIVEIRA, Ana Karina de Carvalho. Agora é a vez do pixo: cenas de dissenso e subjetivação política nas relações entre pixação e arte. 2015. 184 f. Dissertação (Mestrado em Comunicação Social) – Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2015. Disponível em: https://repositorio.ufmg.br/bitstream/1843/47284/1/dissertacao_ana_karina_oliveira.pdf. Acesso em: 15 jul. 2026
POISÉ (@instapoise). Graffiti x Street Art. Instagram, 7 jul. 2026. Disponível em: https://www.instagram.com/p/DaftvrksiVM. Acesso em: 15 jul. 2026.
- O meio é o suporte no qual uma mensagem é produzida, transmitida e recebida no modelo transmissional da teoria da comunicação.
↩︎ - No trabalho de Ana Karina de Carvalho Oliveira (2015) se discute as aproximações e distanciamentos entre pixação e grafite no Brasil. Dessa forma, encontraremos pessoas que colocam grafiteiros e pixadores ao mesmo lado, e outras que farão uma separação. Além disso, a vinheta escolhe a referência ao street art e somente aí há uma disputa com o “grafite” (e ou pixo, em determinados trabalhos), visto que os pixadores estão atrelados a prática da cultura do Hip-Hop e correndo o risco de serem tratado como vândalos e criminosos, enquanto quem produz street art ganha dinheiro pra isso, é contratado e produz uma arte pasteurizada.
↩︎ - Domesticar, controlar, tornar um corpo passivo. Conceito utilizado por Michel Foucault em Vigiar e Punir (1999). ↩︎
