Jogadores palestinos do Gaza Sports Club e do Al-Ahly Club jogam futebol em um campo recém-construído na Cidade de Gaza. Créditos: AP Photo/Jehad Alshrafi.
A Associação Palestina de Futebol (PFA, na sigla em inglês) anunciou na última segunda-feira, 10, a retomada das suas atividades a partir de quatro de setembro. A decisão ocorre quase três anos após competições e práticas esportivas serem suspensas pela entidade devido à eclosão da guerra entre Israel e o grupo palestino radical Hamas, em sete de outubro de 2023. Ataques israelenses contra a Faixa de Gaza deixaram mais de 73 mil palestinos mortos, dos quais ao menos 1.014 eram atletas, segundo estimativas da PFA.
A rotina de bombardeios reduziu o enclave a escombros: de acordo com o Centro de Satélites das Nações Unidas (UNOSAT, na sigla em inglês), 81% das estruturas na Faixa de Gaza foram danificadas até outubro do ano passado. O levantamento, com base em análise de imagens de satélite, apontou que mais de 123 mil prédios foram devastados, enquanto 17 mil estavam severamente danificados. Entre as infraestruturas destruídas por ataques ou tratores militares de Israel, estão pelo menos 285 instalações esportivas.
O retorno das atividades acontecerá por meio da Copa dos Mil Mártires, batizada em referência aos atletas mortos no conflito. A competição reunirá 226 clubes locais, com partidas em Gaza, Cisjordânia e Líbano – em razão da presença de campos de refugiados palestinos no país. Em coletiva de imprensa em Ramala, na Cisjordânia ocupada, o presidente da PFA, Jibril Rajoub, disse que, embora a guerra tenha criado “condições difíceis para todos os palestinos”, o esporte “continuará sendo um símbolo de esperança e vida”. A declaração reflete um percurso de mais de um século de resistência palestina no esporte, especialmente no futebol.
Não há consenso sobre a origem do futebol na região, mas acredita-se que tenha sido levado à Palestina por meio de escolas missionárias pouco antes do Mandato Britânico, uma ocupação que teve início após a queda do Império Otomano na Primeira Guerra Mundial (1914-1918) e que perdurou até 1948, quando o Estado de Israel foi fundado. Mas foi no período da administração do Reino Unido que o futebol se tornou “o esporte mais popular na Palestina, praticado nas ruas, nas escolas e nos clubes” (Khalidi, 2014, p. 74).
Vários times despontaram a partir da década de 1900, como St. George’s School (Madrasat al-Mutran) e Rawdat al-Ma‘aref, ambos em Jerusalém, além do Arab Sports Club, considerado um dos melhores da história da Palestina. No entanto, a popularização da modalidade não foi harmoniosa, e os campos refletiam as tensões políticas do lado de fora.
Time de futebol da St. George’s School, Jerusalém, 1923. Fonte: Arquivo da St. George’s School
O futebol, inclusive, foi um campo de disputa do sionismo, que defende a criação de um Estado soberano para o povo judeu. O pai do movimento, Theodor Herzl, considerava a Palestina uma “pátria histórica inolvidável” e “um chamado comovedor” (1997, p. 24), em referência à expulsão dos judeus da Palestina pelo Império Romano, no ano 70 d.C. Em meio à popularização do futebol nos anos 1920, quando houve massiva imigração judaica a territórios palestinos por incentivo do Mandato Britânico e pelo aumento do antissemitismo na Europa, adeptos a essa ideologia formaram clubes esportivos para ajudar a promover uma espécie de preparação militar e disseminar símbolos histórico-religiosos, despertando “sentimentos sionistas” (Khalidi, 2014, p. 78).
O clima de tensão também pode ser notado na criação, em 1928, da Associação de Futebol da Palestina (PFA), marcada por uma profunda desigualdade na sua composição – na reunião inaugural, por exemplo, participaram 14 representantes sionistas e apenas um delegado árabe. Embora alegasse representar judeus, árabes e britânicos para atender a exigências da FIFA, a entidade logo impôs o uso da língua hebraica e incorporou a bandeira sionista no logotipo oficial.
Uma década depois, a federação – totalmente dominada pelo movimento estabelecido por Herzl – mudaria de nome para Associação de Futebol de Israel, de forma a acompanhar o recém-fundado Estado. Por sua vez, em 1962, seria criada uma nova PFA (mencionada no início deste texto), dessa vez com ligas na Cisjordânia e em Gaza. A organização foi reconhecida pela FIFA e pela Confederação Asiática de Futebol (AFC) somente 36 anos mais tarde, pouco após a Autoridade Palestina assumir formalmente a administração de territórios da região.
Em O que é sociologia do esporte?, Helal afirma que o espetáculo esportivo é capaz de proporcionar “uma pausa naquilo que podemos chamar de ‘vida real’, a vida do dia-a-dia, do trabalho, das contas para pagar, dos problemas familiares, etc” (1990, p. 61). O anúncio da retomada das atividades da Associação Palestina de Futebol em meio a um cenário de devastação em Gaza mostra que o sentimento evocado pelo futebol se impõe nas realidades mais áridas e desoladoras. É reflexo de uma resistência secular que se manifesta no esporte e que, até hoje, se mantém viva.
Referências
HELAL, Ronaldo. O Que é Sociologia do Esporte. Rio de Janeiro: Brasiliense, 1990
HERZL, Theodor. O Estado Judeu. Projeto Livro Livre, 1997.
KHALIDI, Issam. Sports and aspirations: Football in Palestine, 1900-1948. Jerusalem Quarterly, n. 58, p. 74, 2014.
KHALIDI, Rashid. Palestina: um século de guerra e resistência (1917-2017). Todavia, 2024.


