Mais do que o Mundial do Palmeiras, Copa Rio era catarse contra derrota de 1950 para Uruguai
Reduzida na contemporaneidade ao jogo da jocosidade das torcidas, a Copa Rio fica limitada a questão, aparentemente, banal: “O Palmeiras tem Mundial?”. Limitar a importância daquele torneio a uma resposta positiva ou negativa parece, porém, atender mais às necessidades presentes da disputa pela hegemonia do futebol brasileiro, o que deixa de lado um capítulo relevante da rica historiografia desse universo. Mais do que isso, num país em que o apagamento da memória social não é fato isolado, priorizar a jocosidade das torcidas reforça questão menos banal: a de que o futebol brasileiro começou em 1971, quando deu-se a primeira versão do novo formato do campeonato nacional.
Para usar gramática mais contemporânea, implica, num único golpe, o “cancelamento” ou, ao menos, o esmaecimento de acontecimentos marcantes dos anos dourados do futebol brasileiro, quando nossa seleção venceu quatro das três Copas do Mundo (1958, 1962 e 1970), e dos feitos de alguns dos maiores craques da história do futebol mundial. Naquele período, o Brasil, mais do que vencer, convenceu – e seduziu – o universo do futebol interno e externo, ao qual apresentou gênios como Pelé e Garrincha, e craques do nível de Didi, Nilton Santos, Djalma Santos, Rivelino, Gerson, Tostão, Jairzinho e Paulo Cezar, para citarmos apenas alguns dos campeões mundiais daquela fase áurea.
Por isso, menos preocupada em distribuir ou cancelar títulos, esta comunicação visa a tratar de recorte menos abordado no debate sobre como qualificar aquela competição: a tentativa de setores da imprensa brasileira de dar uma resposta que, ao menos, amenizasse a enorme frustração causada pela derrota da seleção brasileira para a uruguaia, na Copa de 1950, por 2 x 1, apenas uma mês depois da inauguração do Maracanã. O vice-campeonato, mais do que uma derrota esportiva, constituiu-se em uma derrota da nação (SOUTO, 2002 e 2024).
Nesse sentido, a ideia da criação da Copa Rio está fortemente informada pela derrota de 16 de julho de 1950, como se verá no noticiário poucos dias após o Palmeiras sagrar-se campeão em cima do Juventus, da Itália. Os principais objetivos declarados da criação da competição eram fazer com que a população não perdesse o interesse pelo esporte, tentar curar a ferida deixada após o “Maracanazo”, recuperar e reiterar o espírito e a força nacional no futebol. O jornalista Mário Filho, dono do Jornal dos Sports, era o seu principal entusiasta.
O torneio reuniu oito equipes divididas em dois grupos. No Grupo do Rio de Janeiro, estado em que ocorriam os jogos dos seus integrantes, estavam: Vasco da Gama (campeão carioca do ano anterior), Sporting (campeão português da temporada 1950/1951), Áustria Viena (bicampeão da Copa Áustria de Futebol e campeão austríaco da temporada 1949/1950) e Nacional (campeão uruguaio de 1950). O Grupo de São Paulo, lugar em que eram realizadas as partidas dos seus integrantes, era formado por: Palmeiras (campeão paulista de 1950 e do Torneio Rio-São Paulo de 1951), Juventus (que substituiu o Milan, campeão da temporada 1950/1951), Estrela Vermelha (campeão da Copa da Iugoslávia de 1950) e Nice (campeão francês da temporada 1950/1951, que substituiu o representante espanhol, que seria Barcelona ou Atlético de Madrid).
A promoção do torneio uniu diferentes veículos, incluindo generalistas e aqueles especializados em esporte. Neste recorte, recorremos, além do JS, ao Jornal do Brasil, que na sua edição de 1 de julho de 1951, um dia depois do início do torneio, se refere à Copa Rio, na manchete da página 11, como “Torneio Internacional de Campeões”. Tal gramática sinaliza o valor mundial que a competição tinha na época, na visão do jornal. O mesmo veículo na sua manchete principal destinada às matérias de esportes, em 4 de julho, destaca tanto as vitórias de Vasco e Palmeiras, nas suas estreias, respectivamente, por 5 x 1 no Sporting, e 3 x 0, no Nice, como “grandes partidas”. E reitera a força dos times nacionais na competição diante de adversários estrangeiros.
Já o Jornal dos Sports tem como manchete da primeira página da edição de 22 de julho de 1951 a final da competição entre Palmeiras e o Juventus, da Itália. A partida é tratada como “finalíssima”. A opção pelo superlativo potencializa o valor dado ao torneio. Dois dias depois após a “finalíssima”, na qual o Palmeiras venceu por 1 x 0 a Juventus, sagrando-se campeão da competição, o mesmo veículo explicita de forma emblemática a importância afetiva daquele torneio, para setores da imprensa e muitos dos contemporâneos: “O Adeus do Football Brasileiro ao Dezesseis de Julho”, proclama a manchete da página quatro.
Apesar do título catártico, os ecos do “Maracanazo” ainda ecoariam por muitas décadas, mesmo depois de o Brasil tornar-se o único país pentacampeão do mundo. Talvez, apenas o 7 a 1 para a Alemanha, visto como hecatombe ainda maior, tenha sido capaz de tirar o foco da derrota de 1950. No entanto, o título do Palmeiras, numa competição com equipes internacionais, serviu, à época, de bálsamo, ainda que provisório, para uma ferida, não apenas do futebol, mas, também, da nação, que insistia em não cicatrizar.
Sem nos estendermos a outros episódios que escapariam ao escopo desta comunicação, tratamento análogo foi dado a outras vitórias de equipes brasileiras contra times uruguaios, como, também em 1951, quando o Vasco venceu por 3 x 0 o Penãrol, em excursão ao Uruguai. A “vingança” era celebrada por imprensa e torcedores por ser o Vasco base da seleção na Copa do Mundo do ano anterior, com oito jogadores, cinco dos quais titulares no jogo final, a vencer o Penãrol, base da seleção uruguaia, com nove jogadores, seis dos quais titulares. A ferida, no entanto, continuaria exposta por décadas, independentemente dos feitos de clubes nacionais.
