Avanços para a difusão do futebol de mulheres no Brasil

Uma das minhas contribuições a este espaço no ano passado foi o texto “(Ainda) Faltam transmissões de futebol de mulheres no Brasil”. A principal competição nacional da modalidade começou mais cedo em 2026, no início de fevereiro, tendo uma grande novidade para aquilo que nos interessa: finalmente, todos os jogos terão transmissão audiovisual!

Neste artigo, reforçamos o quanto isso deveria ser entendido como básico, especialmente para um país com o histórico de resultados da modalidade e que realizará a principal competição mundial no ano que vem. Passaremos ainda por outras mudanças relevantes anunciadas pela CBF (Confederação Brasileira de Futebol) para a modalidade às vésperas da realização da Copa do Mundo FIFA de futebol de mulheres por aqui.

Figura 1 – Série A1 passou a ser transmitida pela NSports

Fonte: Canal @nsports no YouTube

Espacialização da modalidade

Trabalhamos há mais de uma década (Santos, 2014) com a espacialização como o ponto de entrada da economia política sobre o futebol que também explica como a difusão deste esporte se amplia quando se torna programa midiático.

Sob efeitos de um processo de estruturação interrompido por mais de 40 anos no Brasil, com a proibição de sua prática profissional das décadas de 1940 ao início da de 1980 (Goellner, 2021), o futebol de mulheres inicia com indústrias culturais ligadas ao audiovisual consolidadas, com a exibição da modalidade masculina como um programa relevante.

Desta forma, partimos da compreensão que a prática das mulheres enfrentou os desafios de se estruturar num cenário de patriarcado de mídia (Souza; Bastos, 2024), que restringe com a (falta de) difusão as possibilidades de alcance de público e, quase que consequentemente, de marcas interessadas.

No caso da Série A1 do Brasileiro, que existe de forma intermitente apenas desde 2013, o acompanhamento que fazemos a partir do Observatório das Transmissões de Futebóis mostra que a competição começa a ter regularidade de exibição audiovisual apenas na edição de 2018, que contou com a Band – que ficaria até 2022 – e o uso de mídias sociais da CBF. Ou seja, o torneio está na 14ª edição, com transmissão de mais de dois jogos por rodada há menos de 10 anos.

A partir de 2023, com o novo contrato com o Grupo Globo e o fim da plataforma de streaming Eleven Sports/MyCujoo, era difícil saber se todos os jogos teriam exibição inicial. Com a competição aumentando a quantidade de participantes, agora com 18 e a partir do ano que vem com 20 clubes, isso poderia se acentuar proporcionalmente.

Para 2026, Grupo Globo (Sportv na primeira fase e Globo a partir das quartas-de-final) e TV Brasil seguem com dois jogos por rodada cada. Na lacuna de anos anteriores, entraram o NSports (canal esportivo com atuação na fast TV, TV fechada e no streaming) com a exibição de duas partidas e a CBF TV (canal da confederação no YouTube) com outros três.

Figura 2 – Agenda das transmissões da 2ª rodada da Série At

Fonte: perfil @brfeminino no Facebook.

A entrada da TV da CBF acentua o incômodo que apresentamos ano passado: por que a entidade não se colocou como exibidora nos últimos anos se tem capacidade financeira e técnica para isso?

Importante ressaltar ainda que sempre coube à confederação essa responsabilidade, pois, conforme regulamento específico da competição: “Na qualidade de organizadora do BRASILEIRÃO FEMININO A1 pertencerão exclusivamente à CBF todos os direitos comerciais inerentes ao BRASILEIRÃO FEMININO A1”, o que inclui: “de forma irrevogável, irretratável e exclusiva, os direitos de captação, fixação, emissão, transmissão de sons e imagens e de apostas esportivas (betting)” (CBF, 2026a, p. 12).

Também é relevante informar que o contrato anterior com a Globo fora assinado em 2022, com vigência de 3 temporadas. O atual, firmado no ano passado, dura até 2027 (Globo, 2025). Mas se há algum problema quanto à garantia de transmissões, cabe à proprietária original desses direitos se atentar a isso na assinatura de contratos.

Outro ponto positivo no novo contrato é que torneios de base serão exibidos:

Serão até três transmissões por semana nos canais Sportv do Campeonato Brasileiro e Copa do Brasil Sub-17 e Sub-20, com um mínimo de 61 transmissões por temporada. Além disso, o acerto prevê que o Sportv também mostre as semifinais e a final do Brasileirão Feminino Sub-20 (Globo, 2025).

No caso da NSports, haverá ainda a transmissão da Copa do Brasil da modalidade, que se juntará a Libertadores e Brasil Ladies Cup, exibidas pela empresa já no ano passado (Meio & Mensagem, 2025).

Com isso, a CBF garantiu pela primeira vez na história a transmissão de todos os jogos de futebol de mulheres da Série A1 do Brasileiro, com ainda mais exibições das partidas da Copa do Brasil – que nas primeiras fases da masculina também não tem todas transmitidas –, dos Brasileiros Sub-20 e Sub-17.

Apenas as divisões inferiores, Séries A2 e A3, seguem apenas com a certeza de exibição do mata-mata (quartas-de-final, semifinais e finais). A aguardar o início dessas competições para saber se os problemas relatados no texto passado, a partir dos jogos da União Desportiva Alagoana (UDA) na Série A2 de 2024, seguirão.

Outras questões importantes para a estruturação

A transmissão de todos os jogos foi uma das mudanças promovidas pela CBF anunciadas em 24 de novembro de 2025 em evento sobre os calendários dos futebóis brasileiros. Se tratamos da importância da estruturação da modalidade, é importante que citemos, ainda que de forma mais breve, outras mudanças tardias, mas muito necessárias, descritas na figura 3 a seguir.

Figura 3 – Mudanças estruturais garantidas pela CBF

Fonte: CBF (2026b).

A própria confederação apresentou sob o título de “Estrutura” a obrigatoriedade de que todas as atletas estejam sob contrato profissional, mas isso apenas no ano da realização da Copa do Mundo FIFA de futebol de mulheres aqui no Brasil, 2027.

Isso é uma questão básica para compreender as jogadoras realmente como trabalhadoras de futebol, considerando os direitos trabalhistas delimitados para esta atuação profissional.

Um diferencial, também tardio, é a possibilidade de as atletas lactantes poderem viajar com filhos, com a CBF custeando. Outra garantia importante para a manutenção da trabalhadora na modalidade. Recorda-se que a FIFA criou, em 2024, a licença-maternidade, com remuneração e garantia de retorno processual ao trabalho (ge, 2024).

Do ponto de vista financeiro para os clubes, ainda que anterior a esses pontos no documento da entidade, há a informação de aumento das cotas por participação em todas as competições.

Os valores das divisões do Brasileiro aumentaram: 100% na Série A1 (R$ 720 mil), com “partidas de primeira escolha com transmissão nacional serão contempladas com acréscimo de R$ 20 mil por jogo, abrangendo 27 jogos da 1ª à 4ª fase” (CBF, 2026b, p. 11); 2,4 vezes na Série A2 (R$ 360 mil); e, 3,3 vezes na Série A3 (R$ 120 mil).

Pode-se observar ainda que a diferença do valor pago aos clubes por divisão é muito menor que na modalidade masculina, ainda que só a Série A1 pague prêmios a campeão (R$ 2 milhões) e vice (R$ 1 milhão). Caberia estudos específicos e mais detalhados, com outras formas de receitas, para entender a competitividade decorrente disso.

Da mesma forma, ainda é necessário estabelecer métricas reais de mercado audiovisual, com aspectos de audiência e publicidade, para que a distância para o que se paga pela participação no masculino seja mais próxima ao real. Ou seja, não necessariamente igual, mas proporcional a isso. Para se ter uma ideia, quem jogou a Série D do ano passado recebeu cota de R$ 458 mil.

Conclusões

Ainda que estejamos há só um ano da Copa do Mundo FIFA de futebol de mulheres a ser realizada no Brasil, as mudanças encabeçadas pela CBF surgem antes tarde do que ainda mais tarde. Espera-se que siga essa trajetória e se aprimore em questões-chave para a consolidação da modalidade no país.

É importante salientar ainda que faz parte de uma série de mudanças estruturais promovidas pela entidade nacional sob a presidência de Samir Xaud que, frente ao histórico da entidade, nos parecem “revolucionárias”, mas que, como apontamos aqui, são retardatárias frente às necessidades do futebol de mulheres.

Referências

CBF. Calendário do Futebol Feminino do Brasil 2026. Disponível em: https://stcbfsiteprdimgbrs.blob.core.windows.net/img-site/cdn/CALEND%C3%81RIO%20FEMININO%202026_22.11%20VF.pdf. Acesso em: 23 fev. 2026. 2026b

CBF. REC: Regulamento Específico da Competição Brasileiro Feminino A1 2026. Disponível em: https://stcbfsiteprdimgbrs.blob.core.windows.net/img-site/cdn/REC_Brasileiro_Feminino_A1_2026_f62b135540.pdf. Acesso em: 23 fev. 2026. 2026a

GE. Jogadoras terão direito a licença-maternidade remunerada e apoio à gestação, determina a Fifa. Ge, Zurique, 31 maio 2024. Disponível em: https://ge.globo.com/futebol/futebol-internacional/noticia/2024/05/31/fifa-implementa-medidas-de-apoio-a-maternidade-no-futebol-feminino.ghtml. Acesso em: 23 fev. 2026.

GLOBO. Globo e CBF selam acordo pelos próximos três anos para a transmissão dos jogos do futebol feminino. Globo, 24 mar. 2025. Disponível em: https://somos.globo.com/novidades/noticia/globo-e-cbf-selam-acordo-pelos-proximos-tres-anos-para-a-transmissao-dos-jogos-do-futebol-feminino.ghtml. Acesso em: 23 fev. 2026.

GOELLNER, S. V. Mulheres e futebol no Brasil: Descontinuidades, resistências e resiliências. Movimento: Revista de Educação Física da UFRGS, Porto Alegre, v. 27, e27001, 2021. DOI: https://doi.org/10.22456/1982-8918.110157.

MEIO & MENSAGEM. NSports investe na cobertura de futebol feminino. Meio & Mensagem, 15 set. 2025. Disponível em: https://www.meioemensagem.com.br/midia/nsports-investe-na-cobertura-de-futebol-feminino. Acesso em: 23 fev. 2026.

SANTOS, A. D. G. dos. Os três pontos de entrada da economia política no Futebol. Rev. Bras. Ciênc. Esporte, Florianópolis, v. 36, n. 2, p. 561-575, abr./jun. 2014. DOI: https://doi.org/10.1590/S0101-32892014000200019. Disponível em: http://revista.cbce.org.br/index.php/RBCE/article/view/1514. Acesso em: 23 fev. 2026.

SOUZA, R. M.; BASTOS, M. D. Patriarcado de mídia como síntese categorial para os estudos feministas de mídia. Revista Mediação, v. 26, n. 37, p. 124-134, jul./dez. 2024.

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