Este relatório dá continuidade as publicações no âmbito do projeto Prociência “Nações esportivas: usos geopolíticos e apropriações mercadológicas do esporte no século XXI”, contemplado com uma bolsa pelo Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica – PIBIC da UERJ (edital 2024: “Narrativas de consumo no esporte: mídias, culturas e representações”).
Introdução
O primeiro trimestre do ano começou com um marco: a entrada em vigor da regulamentação das empresas de apostas esportivas. Após meses de discussões acerca de como as “bets” seriam normatizadas no Brasil, o primeiro dia de 2025 começou sob uma perspectiva esperançosa de um mercado, agora regulado, de apostas de quota fixa (modalidade na qual o apostador sabe de antemão o valor de retorno). Todavia, apesar de operarem sob regulamentação federal, jogos de azar, ainda assim, são jogos de azar – e não existem ganhos certos. Nesse sentido, a Revista Piauí publicou, em 21 de janeiro, uma reportagem intitulada “Bonde do Tigrinho”, expondo os bastidores de uma parceria entre influenciadores e casas de apostas. Embora não faça parte dos veículos monitorados neste relatório, tornou-se necessária a presença dela neste documento pela repercussão que a referida matéria gerou na imprensa.
As novas regras para a operação das empresas de apostas no Brasil, como normas de segurança financeira, prática de jogo responsável e respeito à legislação predominaram entre os temas nas matérias coletadas. Além disso, verificaram-se escândalos envolvendo as atribuições municipais e federais para a legalização de bets (como no caso União e Loterj). Os principais bancos privados do país também tomaram iniciativas contra o setor de apostas online, aconselhando seus clientes sobre o jogo responsável.
Diante da conjuntura da recente regulamentação das bets, a pesquisa se deteve a analisar os três primeiros meses de 2025, tendo como base três grandes veículos de notícias (Globo.com, Folha de SP e Metrópoles), escolhidos dentre os mais acessados do país segundo o Similar Web. Foram coletadas 116 matérias ao total.
- O “cachê da desgraça”
No dia 21 de janeiro, a Revista Piauí publicou uma reportagem descrevendo como funcionavam os contratos de publicidade entre figuras públicas e as casas de apostas, que rendiam milhões em lucro para quem estivesse divulgando esses jogos. Dentre os mais citados na matéria intitulada “Bonde do Tigrinho”, estão: Cauã Reymond, Virginia Fonseca, Galvão Bueno e Neymar como “pessoas-propaganda” ou, em alguns casos, atuando até mesmo como embaixadores dessas empresas. A reportagem, que repercutiu nos veículos monitorados, trazia histórias de pessoas que haviam perdido altas quantias de dinheiro em apostas. Uma delas chegou a perder mais de R$ 1 milhão.
O termo “cachê da desgraça” é empregado para se referir ao alto faturamento dos divulgadores de casas de apostas, que, por sua vez, aumentariam seus retornos com a parceria quanto maiores fossem as perdas dos seguidores-apostadores.
A reportagem teve grande repercussão, o que, mais tarde, também foi assunto na CPI das bets. Por ora, com a regulamentação em vigor, o que se encontra em questão é como essas plataformas são divulgadas.
- Embate entre regulamentação federal e estadual (casos Loterj e Bodó-RN)
Um dos debates centrais se pautou em qual ente federativo tem a competência de licenciar e regulamentar as casas de apostas online – e qual o limite físico (geográfico) dessa atuação. O cerne da questão está nos limites regionais para a exploração de loterias e apostas. Na disputa entre o governo federal e a Loteria do Estado do Rio de Janeiro (Loterj), tudo começou quando o primeiro questionou um edital da Loterj, que permitia que empresas credenciadas por ela – nesse caso, as bets – operassem em todo o território nacional. De acordo com a Advocacia-Geral da União (AGU), a Loterj teria alterado o edital, removendo a exigência de mecanismos de geolocalização, ou seja, se alguém apostasse em uma bet hospedada no Rio de Janeiro, as apostas seriam consideradas como realizadas no estado, independentemente da localização do apostador (que, nesse caso, poderia estar em outro estado) .

Com esse cenário, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça outorgou uma decisão liminar, posteriormente referendada pela maioria do plenário do STF, exigindo que o governo do estado do Rio de Janeiro e a Loterj adotassem medidas para garantir que as empresas de apostas esportivas com autorização estadual recebam apenas apostas referentes ao próprio estado. A decisão também vetou o governo do estado e a Loterj de praticarem qualquer novo ato que permitisse a atuação das bets fora da área regional estabelecida. A Loterj defendeu-se argumentando que sua regulamentação teve como parâmetro a legislação que considera o serviço prestado no domicílio do prestador de serviço, como no e-commerce (a fatura é cobrada no endereço da empresa). Nessa lógica, por estar sediada no Rio de Janeiro, a geolocalização seria desnecessária. No entanto, essa tese foi derrubada pelo STF.
Similar ao caso Loterj, a cidade de Bodó, no Rio Grande do Norte, foi notificada pelo Ministério da Fazenda. Em outubro de 2024, a prefeitura de Bodó abriu uma licitação e credenciou 38 empresas de apostas esportivas para oferecerem serviços de loteria no município. Curiosamente, o número de casas de apostas credenciadas representava a proporção de uma bet para cada 62 moradores. O Ministério da Fazenda afirmou que apenas a União, os Estados e o Distrito Federal podem oferecer apostas de quota fixa em todo território nacional.
- Bets no Brasileirão 2025
As empresas de apostas online se consolidaram como patrocinadoras dominantes no futebol brasileiro. O mercado brasileiro é o terceiro maior mercado global de apostas esportivas. Atualmente, todos os clubes da Série A do Brasileirão 2025 são patrocinados por bets, quase todos como patrocínio master – exceto Mirassol e Bragantino. Essa parceria inflacionou contratos e criou uma relação de dependência financeira dos clubes para com as bets. Como exemplos: o Flamengo recebe R$ 105 milhões por ano da PixBet; Corinthians, R$ 103 milhões da Esportes da Sorte; e Palmeiras, R$ 100 milhões da Sportingbet. Contudo, apesar do avanço dos patrocínios de casas de apostas no Brasil, na Europa, por exemplo, as bets parecem caminhar em outra direção. Os clubes da Premier League vão retirar os patrocínios de bets da frente de suas camisas (patrocínio master) a partir da temporada de 2026/27. No entanto, as marcas de casas de apostas ainda poderão aparecer nas mangas, paineis e placas publicitárias.

- Medidas para promover um jogo responsável e proteger o apostador
A Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) estimou que o varejo deixou de faturar aproximadamente R$ 103 bilhões em 2024, por conta de recursos de consumidores que foram redirecionados para as casas de apostas online: “potenciais consumidores destinam uma parte considerável de sua renda para as apostas”¹. A pesquisa da CNC também apontou que 1,8 milhão de pessoas ficaram inadimplentes por conta de gastos desenfreados com bets e jogos e que o público mais atingido são famílias de baixa renda. A maior parte das dívidas adquiridas são relacionadas com cartão de crédito. De acordo com matéria da Folha de SP: “Há algo perverso de certos jogos online hoje, na prática, à disposição de qualquer um com um celular. Os algoritmos são programados para retirar dinheiro das pessoas. Muitas vezes por meio de estratégias claramente ilusionistas como oferecer créditos para, logo depois, deixá-los no prejuízo.”
Alguns bancos, como Bradesco e Nubank, adotaram medidas na tentativa de conscientizar seus clientes a respeito do gasto desenfreado de dinheiro nas bets. O Bradesco começou a fazer um alerta aos clientes que enviavam Pix para as casas de apostas, dando opções mais seguras para valorizar o dinheiro e que vinham com um aviso: “Apostas não garantem retorno financeiro e o dinheiro pode ser totalmente perdido”. Por fim, o banco afirmava que o alerta era “meramente informativo” e que não tinha a intenção de impor restrições às transações bancárias. O Nubank, por sua vez, exibia uma mensagem dizendo: “Essa transferência é para uma casa de apostas?”, caso a resposta fosse afirmativa, outro aviso era colocado, algo como uma sugestão: “Que tal guardar esse dinheiro?”. Apesar dos avisos, assim como o Bradesco, o Nubank deixa claro que não impede ou bloqueia essas transferências destinadas a plataformas de apostas online.

Metodologia
Foram escolhidos para análise três portais (folha.uol.com.br, globo.com e metropoles.com), listados entre os mais acessados na categoria “New & Media” pelo SimilarWeb. A análise foi desenvolvida com a ajuda do software Google NotebookLM. Foram coletadas, no total, 109 matérias, sendo elas: 21 da Folha de SP; 62 do Globo.com e 26 do Metrópoles.
Publicações anteriores
Redação do relatório
Letícia Ribeiro (bolsista de Iniciação Científica)
Fausto Amaro (coordenador do Projeto)
